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Corpo presente/não lugares
Imagem digitalizada
165,5x507 cm.

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Estratégias para perda
de sentidos
As questões que tangenciam o tema do corpo são recorrentes
na obra de Caetano Dias. Desde o inicio dos anos 90 sua produção
trazia o interesse pela possibilidade de ressignificar o corpo.
Naquele momento, o artista se apropriava de gravuras confeccionadas
pelos artistas viajantes do período colonial brasileiro
para retrabalhar o olhar exótico dos mesmos .De lá
praça, o que mudou em sua obra?
Digamos que ele tenha mantido certos procedimentos
e que tenha redimensionado outros tantos. De um lado, manteve
o processo de construção sempre presente em seu
universo. De outro lado manteve o processo de apropriação
em seu trabalho .
Só que é como se tivesse mudado de planeta , porque
no início dos anos noventa essa operação
eram feitas no contexto do mundo real, analógico e agora
vem sendo realizado no contexto do mundo globalizado, virtual
, digital.
Hoje trabalha com vídeo,com obras tridimensionais e com
fotografia. Embora ele não seja um fotografo no estrito
senso - não é ele que "clica"as imagens
- ele é fotografo no sentido de"ver"imagens ou
antevê - lãs, para em seguida, escolhe-las e apropriar-se
delas criar suas metáforas. Dias utiliza"sites"de
busca na rede informática para encontrar imagens de repertorio
erótico e reprocessá-las. Diluindo suas formas e
desfocando -as, o artista as devolve à condição
de anonimato: ao perder o foco, as imagens perdem a origem;olhos,
nariz , boca ,fonte - elementos de configuração
da identidade - são retirados para alterar o significado
imagético.
Numa segunda operação, o artista renomeia essas
representações criando as séries "santos
populares""e "sobre a virgem ". O resgate
e a aproximação com a tradição popular
não se dá em relação à forma,
ao contrario, suas representações não tem
aproximação formal com o imaginário do artesanato
brasileiro. O que Dias resgata é o sentido"sacro "da
tradição popular.
Duas significações transparecem nessa estratégias
para perda de sentido: os conteúdos profanos dos"
sites" se tornam sacros na reapropriação; forma
e pintura tradicionais da cultura popular - e recebem novo tratamento
a partir da diluição e do desfocamento configurando
uma nova imagem. Formalmente, caminha no sentido oposto da forma
na cultura popular, ao constituir pictorialidades no uso da fotografia
da maneira mais contemporânea, bem ao modo dos nossos dias.
Essas ações de alterações do conteúdo
sígnico, simbólico e formal revelam o artista inquieto
que deseja modificar o sentido das coisas, ainda que a tradição
seja importante para ele. Caetano é baiano e por meio da
tradição estabelece conexões mais profundas
com a sua cultura, mas, de outro lado, ele parece querer ver a
vida ressignificada e apropriada aos dias de hoje.
São ressemantizações que abrangem do espiritual
ao estético, a despeito da tecnologizaão da cultura
e da virtualização do uso do corpo no mundo globalizado.
Na série "Sobre a Virgem, estabelece uma tentativa
de desgaste ou perda de matéria nessa apropriações,
no ato de perfurar as imagens. Aqui o corpo é reprojetado
enquanto objeto; sua representação física
é tentativa de criar lugar para subjetividade.
Ao criar um sistema simbólico, o artista configura uma
ação inconoclasta que eventualmente pode beirar
a abjeção.E porquê ? Os próprios títulos
das obras caracterizam o seu constante processo de construção
e desconstrução.
Antagonismo para desestabilizar um sistema dado a priori;construção
no plano físico para desconstruir o plano simbólico.
Ao criar esse corpos metafísicos, Dias conecta-se com uma
certa linguagem, em que a mente passa a ser a ideologia do corpo.
Este, por sua vez inventa teorias para justificar, purificar,
redimir.
E - ressignificando - seduzir, liberar e encantar.
Indaguei o artista sobre o campo da abjeção em sua
obra, se o ato de entrar em outros mundos (internet)e "sacar"ou
saquear imagens não o aproxima de uma ação
predatória... mas o caráter voyeurista desse ato
se justifica no contexto vivido pelo homem urbano.Contrariamente
ao tipo de abjeção encontrada no universo Duchampiano,
que se apropriava e ressignificava para desestabilizar os estatutos
vigentes da arte e do mercado, o abjeto em Caetano vai se dar
no plano do cidadão do 3. mundo globalizado . O campo de
ação do artista é o universo do cotidiano,
como contraponto ao da "rede "ou melhor: no seu caso,
o da tradição e dia-a-dia baianos, no contexto do
mundo global. Por meio de atitude voyeurista, Dias indaga sobre
a possibilidade de simulação do prazer absoluto
a partir da erogeneização da imagem na internet.
E retoma a contradição da idéia de culpa
inserida na cultura cristã, a partir da proibição
da idolatria das imagens, acirrando o conflito entre proibição
e desejo via apropriação das mesmas, uma vez que
"cristo é feito a imagem e semelhança de Deus"...
revela o artista.
Essas representações de Caetano que tangenciam o
território de uma erótica virtual podem evocar um
certo narcisismo, aproximando-o do repertorio da abjeção
pela emergência de uma cultura onde o superego torna-se
mais cruel, onde ficção, desejo e realidade se interpenetram
na ausência total de alteridade.
Mas não nos enganemos. Esse é o índice de
crítica no repertorio de Caetano Dias, que se inscreveu
no circuito da arte contemporânea e resiste, a despeito
do modelo da gestão atual da sociedade globalizada.
Vitória Daniela Bousso
Paço das artes,São Paulo, 15 de julho de 2002.

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