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Livro Informal Espetáculo
I, II, III, IV, V, VI: Memórias Provisórias.
Publicação no jornal Gazeta do Povo, Curitiba,
09 de fevereiro de 2002. Caderno G, p. 4.
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memórias provisórias
Muitas vezes me acontece guardar
um objeto mesmo sem saber o que fazer com ele. Nem sempre entendo
o impulso que me leva a selecioná-lo, dentre uma infinidade
de outros, e conservá-lo ao meu alcance, mas sinto uma
vaga certeza de vir a precisar dele mais adiante. O que cria essa
necessidade? É provável que ao elegê-lo empreste
a esse objeto o poder de ativar em minha mente algo capaz de me
fazer ver o que não estou vendo, fazer outra vez o que
não estou fazendo, pensar e sentir outra vez o que foi
sentido e pensado antes do momento presente e em situação
diversa da que me encontro agora. Essa "vivência"
é diferente da original e possibilita estender o olhar
desde outro ponto. Tal deslocamento ao passado proporciona um
momento presente genuíno, tão novinho e real como
o que estou vivendo agora, para fazer dele o que quiser.
O fenômeno memória, de importância fundamental
para o ser humano, é tomado como elemento principal na
obra de DIDONET THOMAZ. É transformado em instrumento ativo
numa espécie de jogo de conexões múltiplas.
A obra de DIDONET estende uma rede de possibilidades de relacionar
memórias provenientes de universos distintos, como as produzidas
pelos objetos do Espólio de Sara Stenzel,2 as colecionadas
pela própria artista, as inevitávelmente evocadas
pela Sala Indice do Museu da Gravura Cidade de Curitiba -- onde
acontece a exposição, situado no prédio histórico
Solar do Barão -- e as que vão sendo elaboradas
pelo público fruidor.
A estrutura dessa mostra equilibra-se entre um passado onipresente
e um presente contínuo, movediço e cambiante, flagrantemente
condicionado às flutuações de interpretações
pessoais. No entanto, o formato caixa/vitrine e o título
da série de obras Livro Informal Espetáculo, para
a ocasião, segundo a artista, sugerem um método
quase científico de exibição. Nela se encontram
reunidos objetos pinçados do universo pessoal da artista
e desenhos anteriores, exibidos junto a mata-borrões usados
pela família Stenzel. Ao mesmo tempo, a disposição
dos elementos e o caráter provisório dessa "mostragem"
aponta para o universo em que esse objeto "científico"
transita: o da arte. Os títulos indicam o descompromisso
da informalidade e a finitude do espetáculo -- essas caixas
já foram e podem voltar a ser montadas em outras propostas,
sem qualquer vínculo com os Livros desta exposição.
Alinhados na horizontal e suspensos junto à parede direita
da sala os Livros compõem-se de uma caixa de madeira e
vidro, parcialmente envolta por uma peça de couro vestuário
vermelho escuro. A associação dos elementos contidos
em cada Livro foi regida por uma ação dominante
-- fechar para o Livro Informal Espetáculo I, superpor
para o II, encostar para o III, suspender para o IV, amassar para
o V e empilhar para o VI. Uma etiqueta do mesmo couro, em formato
semelhante ao das malas de viagem,contem a legenda correspondente
e acompanha cada Livro.
No lado oposto da sala está uma mesa/armário de
madeira com tampo de vidro -- prateleiras vazias para acomodar
os Livros ao final da exposição -- e uma pele de
coelho fixada à parte interna da porta, sem esquecer a
etiqueta.
Sobre a mesa, uma pequena e antiga vitrine de madeira (propriedade
da artista) mostra em seu interior dois chapéus femininos
feitos por Sara, um branco (do acervo de Gerda Wilhelm) e um preto
(de Lydia Stenzel), apoiados nos pratos de uma balança
diminuta. Deitadas na transparência do vidro, duas caixas/vitrine
iguais às dos Livros aninham em seu interior -- revestido
pelo mesmo couro vermelho escuro -- dois livros abertos, cujas
páginas expõem gravuras em preto e branco. O livro
DIE NÄCHTE (As Noites), (1) de Alfred de Musset, mostra,
em águas-fortes originais, antigas imagens noturnas das
estações do ano -- uma alusão da artista
à ciclicidade do tempo. Na outra, o livro DER TOTENTANZ
(A Dança Macabra, As Imagens da Morte e O Alfabeto da Morte)(2)
é composto por provas das xilografias desenhadas por Hans
Holbein e remetem à morte.
Princípios básicos de gravura envolvem noções
de incisão, matriz, marca, impressão, inversão,
múltiplo, além de cheio e vazio, luz e escuridão
e uma infinidade de opostos -- o resultado final do procedimento
pode ser um corpo (o papel) que se apresenta marcado (impresso)
pelo contato com outro (a matriz), de natureza diversa (madeira,
metal, pedra ou qualquer material), do qual guarda uma espécie
de memória ( o que estava gravado na matriz e foi impresso
com tinta ou relevo). São noções encontráveis
em muitas situações da vida passíveis de
interpretação de acordo com o contexto. DIDONET
estende ao público essa matriz de interpretação
ao longo da exposição. Todos os elementos que compõem
essa mesa apontam nessa direção e para o passado.
Foi a própria Sara quem confeccionou os chapéus
e também as incisões exatas que preservaram a pele
de coelho -- atividade que repetia regularmente com o intuito
de comercializar as peles e a carne dos animais que criava especialmente
com essa intenção. Não há dúvida
de que as incisões necessárias para gravar as matrizes
que deram origem às gravuras dos livros antigos são
de natureza diversa, embora tenham conduzido a noções
de cheio e vazio ao produzir marcas no corpo do animal e no do
material da matriz. O que as liga é o caráter definitivo
dessas ações -- uma clara alusão ao passado.
Esse caráter definitivo, no entanto, traz em seu bojo uma
interrogação incômoda -- se já aconteceu,
como saber o que foi? -- indicando permeabilidade a interpretações
e tornando essa noção de passado, outra vez incerta,
movediça, sujeita a mutações.
Se a memória é interpretativa e oferece novíssimos
e sempre frescos momentos reais, o passado, como algo de oculto,
encontra-se no presente. Em alguns dos Livros há elementos
que não estão visíveis; a decisão
da artista de manter esses conjuntos de memórias pessoais
junto a memórias alheias, pensadas como obras apenas pelo
tempo que durar a exposição, estabelece a possibilidade
de produzir novos presentes usando como matéria prima fragmentos
de numerosos passados. Fica evidente que a artista reconhece diferenças
entre os tipos de memórias e multiplica as características
de cada tempo -- trabalha oferecendo ao público, além
da parte fixa da exposição, um ritual cíclico
que se renova a cada semana, abrangendo todo o tempo da mostra,
invariavelmente, quintas-feiras, às dezessete horas, DIDONET
abre as caixas e vira uma página de cada livro de gravura.
A artista estabelece então, mais uma possibilidade do tempo:
o que se pode controlar e dominar, exibir e ocultar, por meio
de pensamento e ação.
DIDONET THOMAZ preparou para o público uma trama riquíssima
de elementos ligados ao tempo, armados como peças de um
jogo que vai acontecendo à medida que se decifram suas
peças, em sua maioria não palpáveis ao tato,
mas tão densas quanto um objeto material qualquer. (3)
Curitiba, fevereiro de 2002.
ANA GONZÁLEZ
Fotografia e texto. Artista plástica e responsável
pela idealização e organização do
programa INCISÃO, MARCA E MÚLTIPLO.(4)
1 DIE NÄCHTE (As Noites)
de Alfred de Musset (1810-1857) e águas-fortes originais
de Christian L. Martin, Editora Artur Wolf, Viena, 1920.
2 DER TOTENTANZ (A Dança
Macabra, As Imagens da Morte e O Alfabeto da Morte) e provas das
xilogravuras desenhadas por Hans Holbein (1497-1543), talhadas
por Hanns Lützelburger e outros, editadas por Amsler &
Ruthardt, Berlin, 1922.
3 Este texto foi publicado pelo
jornal Gazeta do Povo, Curitiba, 9 fev. 2002, Caderno G. p. 4.
O Projeto Espólio de Sara Stenzel, Teatro Monótono:
Livro Informal Espectáculo, I, II, III, IV, V, VI, foi
citado no artigo UMA CASA EM DESMANCHO, Teatro Monótono:
1992-2004. In: Arte em pesquisa: especificidades. Maria Beatriz
de Medeiros (Org.). Brasília/DF: Editora da Pós-Graduação
em Arte da Universidade Federal de Brasília, 2004, v. 2,
p. 231-240. XIII Encontro Nacional da Associação
Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas-ANPAP, Brasília/DF,
nov. 2004. Disponível em <http://www.corpos.org/anpap/2004/textos/clv/didonetthomaz.pdf.>.
4 INCISÃO, MARCA E MÚLTIPLO
foi um programa de exposições promovido pelo Museu
da Gravura Cidade de Curitiba através de sua Loja, com
a intenção de abrir espaço para discutir
a relação produção artística&comercialização.
O programa privilegiou produções de arte contemporânea
que mantenham algum vínculo com conceitos ou procedimentos
de gravura, fazendo jus à vocação do Museu
ao mesmo tempo que, procurou dar visibilidade à produção
brasileira local e nacional. Maria de Lourdes Gomes (12 ago. -
30 set. 2001), Isabel de Castro (4 out. - 11 nov. 2001), Larissa
Franco (14 nov. - 16 dez. 2001), Didonet Thomaz (20 dez. 2001
- 10 mar. 2002) e Marga Puntel (7 mar. - 14 abr. 2002) foram as
artistas integrantes deste primeiro momento 2001/2002. Centro
Cultural Solar do Barão - Sala Índice.
5 Agradecimentos à Ana
González, Cassiana Lícia de Lacerda, Célia
e Guido Didonet, Elfi Harlezki (in memoriam), Irma Penner, José
Carlos Thomaz, Gerda Wilhelm, Marli Kohls, Roberto Alves dos Santos
Junior, Rosemarie Seely, Solange Fiori, à família
Stenzel, especialmente Norma, Cida e João Nestor e Nestor
(in memoriam). Agradecimentos à Adelaide Rudolph pela tradução
(do alemão para o português) de DIE NÄCHTE e
DER TOTENTAN Z; à Antonia Schwinden pela revisão.
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