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Detalhe da intervenção
feita no Centro Cultural Cândido Mendes, RJ. 2006
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Detalhe da intervenção
feita no Centro Cultural Cândido Mendes, RJ. 2006
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Intervenção feita no
Museu da Gravura da Cidade de Curitiba. 2005
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Intervenção feita no
Museu da Gravura da Cidade de Curitiba. 2005
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O corpo como
mapa de si mesmo o corpo como casa
Manoel Ricardo de Lima (1)
O que nos solicita de atenção
para esticar o olho aos mapas enquanto não estamos procurando
nenhum ponto fixo ou de passagem? Desde seus quandos, seus primeiros
tempos, os mapas, como desenhos da cartografia dos limes de uma
terra, tomam sugerir que as suas linhas de configuração,
num sentido o mais aproximado possível de uma representação
do real, do mundo objetivo, são talvez ou mesmo uma representação
dos sulcos e das vincas de nosso corpo. Um jeito para nos encontrarmos
ou, ao menos, para não nos perdermos. E tomando assim o
nosso corpo como escala, como meridiano, como substantiva condição
de nossa própria cartografia ética e política,
para imprimir outra sugestão que pode ser resumida a uma
pergunta: como estar no mundo?
E é desta pergunta que uma conversa
com a imagem e com a re-configuração dela entre
os mapas e o corpo, entre o corpo e os mapas - qual cartografia,
qual organismo, qual o sentido, qual o norte ou qual desnorte
de nossas essencialidades, de nossos prismas de rasgo e risco
em existir -, que a artista visual Eliana Borges parte para desenvolver
os objetos de seu último trabalho, a exposição
CARTO+GRAFIAs. Numa relação clara entre a dista
e a entranha, os materiais utilizados agora neste trabalho de
Eliana confirmam, ampliam e problematizam os impasses aos desfazimentos
gagos e balbuciados da imago, também como discurso, nas
estruturas falidas das sociedades contemporâneas.
É possível assim pensar que
partindo desta pergunta aparentemente banal - como estar no mundo?
- e tomando a direção do simples gesto de rodopiar
sobre si mesmo, sem interrupções, que o nosso corpo
se esturra em padecimentos e se estabelece, numa justa, como um
corpo-precário. E Eliana Borges, neste trabalho, e em sua
pesquisa e trabalhos anteriores, parece nos perguntar como estamos
lançados em nossas precariedades, como quedamos a nossa
luta mais tenra, a da vida nela mesma; ou ainda, com mais rigor,
parece nos perguntar qual a possibilidade de nos sairmos e nos
fugirmos de nossa exausta e complexa precariedade corpórea,
hoje. Ao mesmo tempo em que indica um como, mas não uma
saída, mas um como dissesse ser a arte, ou alguma arte,
ainda, um princípio para retomar (atando e desatando) os
nós da imago como espaço afetivo, e aí, sim,
como lugar da nossa mais profunda, ou inócua, que seja,
possibilidade de imaginar.
Neste trabalho de Eliana Borges é
possível lembrar também, quase imediatamente, da
encantadora arte da cartografia (entre o nome e o desaparecimento
dele, entre o espaço e sua representação)
que está sugerida por Lewis Carrol em seus livros Alice
no País das Maravilhas, Alice Através do Espelho
e Sylvie e Bruno. Nestes trabalhos Carrol desfaz todo e qualquer
sentido lógico acerca das leis do tempo e, principalmente,
do espaço nas demarcações do território.
Primeiro, no bosque onde as coisas não têm nome,
nem precisam ter. O genial e incerto esboço das coisas
sem nome, logo sem lugar. Depois, quando um professor alemão
de geografia quer desenvolver um mapa para uma ilha, um mapa que
tenha como representação o mesmo ponto a ponto do
território mapeado. Um mapa auto-referencial. Mas nisso
os lavradores do local percebem as impossibilidades: este mapa
terminaria por impedir a entrada de luz sobre a terra e mataria
tudo o que é vivo. E assim, eles, lavradores, passam a
usar a própria terra como mapa de si mesma.
É esta a questão mais interessante
do trabalho de Eliana Borges: usar o corpo como mapa de si mesmo,
um corpo que tenta estar para não se morrer num antes.
O corpo como casa, como primeiro lugar das intimidades, como primeiro
espaço interno, como lugar. O corpo como a primeira cartografia
de afetos: a primeira idéia de nossas afecções,
o corpo como casa, a primeira das zonas de fronteira, o corpo
como primeiro campo problemático. E perder o prumo do onde
é casa, onde é corpo, onde é mapa: esta a
postura plástica deste trabalho que se desfia no nome,
etimologicamente: CARTO+GRAFIAs. O uso de materiais como agulhas
usadas pela acupuntura - "na verdade, somos todos agulhas",
afirma Eliana -, por exemplo, em tamanho mesmo e tamanho agigantado,
fincadas por todo o espaço da exposição sobre
mapas de todos os lugares logo de lugar nenhum, perfuram a paisagem
do entre alhures e nenhures: a paisagem do futuro: a paisagem
do incerto: a paisagem do sem lugar: perfuram e raspam a paisagem
das imagens que não nos aderem, que não nos doem:
nos fotogramas, nos tecidos, nas linhas, nos mapas. Eliana quer
propor interrogar esta imagem que desaparece nela mesma, fazer
doer onde desapareceu doer. E mais: num cruzamento dos objetos
dentro do espaço ocupado pela exposição,
interferindo, intervindo, dar a ver um como trazer equilíbrio
e estímulo ao sentido mais denso do trágico: o corpo
como mapa de si mesmo.
1 - Poeta.
Professor de Literatura Portuguesa, UFSC. Autor de Embrulho (7Letras),
Falas Inacabadas - objetos e um poema, com a artista visual Elida
Tessler (Tomo Editorial), As Mãos (7Letras) e Entre Percurso
e Vanguarda (Annablume).

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