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Fernando Burjato
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Não sei se sempre foi assim, e se não foi, há quanto tempo as coisas ocorrem desta forma; o fato é que eu - e todos os artistas de minha geração - temos como ponto de partida o desejo de se comunicar, de se fazer alguma coisa e, mais do que tudo, o desejo de ser artista, de fazer parte de algo que acreditamos, de fazer arte, de participar da arte. O que nos leva à arte, a princípio, é um encantamento com a instituição, e não um questionamento. Nosso impulso é uma espécie de desejo reacionário, se alguém quiser pensar desse modo: primeiro existe o desejo de se fazer parte de algo no que se acredita, para só depois ver, considerar, se se acredita, de fato. E se é assim que deve ser.

Depois, uma vez que se decidiu que se deve ser um artista, é preciso pensar em como fazer seu trabalho, no modo mais honesto possível. O que não significa ter algo a dizer. Não consigo conceber um artista que tenha algo a dizer. E não vejo paradoxo algum nisso. O significado que me interessa é sempre o próximo, e não aquele que está aí.

(E isso não vale apenas para a arte, se é que alguma coisa vale apenas para a arte.)

E é fundamental uma crença muito grande na honestidade - e na possibilidade de alcançá-la - e a esperança que essa honestidade venha a redimir nossa crença, estupidamente cega, a princípio, na arte.

Arte é sempre afirmação; arte, ao contrário do que afirmou Picasso, é sempre a favor.


Fernando Burjato, São Paulo, 2003


Fernando Burjato em foto de Ana Brengel.

Sem título. óleo sobre mdf, 30 x 45 cm. 2005

Sem título. óleo sobre mdf, 30 x 45 cm. 2005

Sem título. óleo sobre mdf, 30 x 45 cm. 2005

Sem título. óleo sobre mdf, 30 x 45 cm. 2005

Sem título. óleo sobre mdf, 30 x 45 cm. 2005

Sem título. óleo sobre mdf, 30 x 45 cm. 2005

  FERNANDO BURJATO

Fernando Burjato é artista, com uma intensa produção literária. Fernando Burjato é escritor, com uma intensa prática artística. Ainda que vaga, essa definição talvez introduza com propriedade o processo criativo de Fernando. Tal dado faz-se realmente necessário, na medida em que se constata que ambas as atividades são de certa forma indissociáveis em suas frentes de trabalho. Este caráter intercambiável entre as duas linguagens pode ser aferido após alguma familiaridade com sua obra; é denunciado, por exemplo, pela recorrente incidência da palavra em sua produção artística pregressa - que surge ora como elemento compositivo, ora como elemento residual ou ainda como artifício de 'bloqueio' a 'interpretações esteticistas' -, e na estrutura modular, esquemática e aberta de seus contos, que dialoga com sua pesquisa artística.

Essa tônica se mantém em sua incursão pictórica - recente, aliás. As obras aqui apresentadas, é preciso dizer, são antes de tudo a materialização de uma investigação - algo obsessiva - que se confunde com a própria existência de Burjato, delineando sua poética: um desejo de registrar as pequenas idiossincrasias da vida cotidiana, em que tudo seria passível de ser interpretado, classificado ou ordenado segundo um padrão altamente subjetivo de sistematização. Um certo exercício de fetichismo, certamente, e que em graus diversos dormita na maioria de nós.

Na pintura modular aqui apresentada, repleta de jogos e variações cromáticos - antes não-figurativa que abstrata, classificação evitada pelo artista -, este processo se consolida como a cristalização de seu interesse pelas propriedades compositivas da cor, que começa a pesquisar, inicialmente, em pequenos trabalhos com bastões de massa de modelar. Passa em seguida para o pastel e guache - operando sempre sobre papel, por temor de investir esta fatura de uma 'aura' indesejada - e finalmente para o óleo, onde a escala é ampliada, fase (atual) da qual alguns resultados estão aqui presentes.
Esta produção reflete e resume, em sua fatura e apresentação, o descompromisso de Burjato com quaisquer intenções esteticistas: sua obra não aspira a nada além de sua existência autônoma pura e simples, resultado que é de um processo em que a clareza da dimensão processual emerge antes mesmo do próprio pensamento.


Guy Amado


Fragmentos urbanos em ritmo teatral
FRANCISCO VENCESLAU DOS SANTOS

[07/JUL/2001]
O TEATRAL NA FICÇÃO CONTEMPORÂNEA: CABEÇA, CORPO, CAVEIRA E ALMA
Fernando Burjato
Bom Texto, 144 páginas

Fernando Burjato, artista plástico do Paraná, residente em São Paulo, entra na cena literária prometendo bastante, tanto pelo interesse que sua ficção provoca nos leitores quanto pelo novo modo de ver coisas e pessoas pelo ângulo do imaginário. O interesse de seus contos incide sobre o cenário urbano da modernidade tardia - que é visto como um palco de teatro, onde personagens anônimos desempenham variados papéis.

As cenas do cotidiano são representadas por atores da classe média com suas aspirações mesquinhas, e por jovens envolvidos em ritos de iniciação sexual, em suas tentativas de ingresso nas atividades do mundo dos adultos. Neste sentido, o contista se integra na área de investigação de temas relacionados à grande desilusão surgida depois do não cumprimento das promessas das utopias ético-políticas dos séculos 19 e 20: a perda das esperanças com a emergência do capitalismo tardio nos países periféricos, e o desmantelamento do Estado do Bem-Estar Social.
A utilização da literatura para a reflexão de idéias e questionamentos da própria ficção constitui uma marca constante desta coletânea. As notações reflexivas giram quase sempre em torno do cotidiano opressivo da família urbana, da investigação da alma de indivíduos solitários em suas residências, clubes, ruas e escritórios. Jovens inseguros ensaiam o desempenho de tarefas programadas pela cultura do consumo, como se estivessem em salas de teatro. Diante da impossibilidade de atingir o sonho artificial da felicidade burguesa programada pela mídia, o mundo se transforma para eles num teatro do absurdo.

Teatro - Embora não revele explicitamente marcas da influência dos ficcionistas brasileiros contemporâneos, principalmente dos anos 90, seus contos utilizam elementos ficcionais que rompem com as convenções das narrativas realista. Neste particular, merece destaque a encenação teatral, que passa a ser utilizada como técnica de composição narrativa, como já fizeram Bernardo Carvalho e João Gilberto Noll, na construção de romances, no fim do século 20.

Um dos campos de sondagem da coletânea Cabeça, corpo, caveira e alma é o insólito via reciclagem de atitudes da cultura kitsch, a imitação das relações artificiais de conforto, consumo fácil e aspirações de uma felicidade desprovida de sentido - o pastiche das banalidades dos estilos da subliteratura. Em ''Caliginefobia, o medo de mulheres bonitas'', Fernando desconstrói uma série de frases feitas e eventos banais que desestabilizam o cotidiano do ''homem sem qualidades''. A escrita de Burjato não fica comprometida, porém, com a utilização de clichês, porque o efeito do seu vôo é a exibição da estranheza de um espaço urbano, habitado por indivíduos sem nome que em sua rotina se vêem confrontados com o imprevisto.

O volume merece ser lido tanto pelo interesse que pode despertar nos leitores em busca de sentidos para os diversos ângulos da vida contemporânea quanto pelo prazer que apresentam suas ressonâncias kafkianas misturadas ao lirismo das coisas simples, como o culto erótico do corpo combinado com o exame das intimidades do espírito.

* Francisco Venceslau dos Santos é professor de Teoria da Literatura no Instituto de Letras da Uerj



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