MUVI - Museu Virtual de Artes Plásticas
Letícia Cardoso
Primavera
SESC - Florianóplis, SC. março de 2006
Outros trabalhos de
Letícia Cardoso
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Outros artistas no MUVI

Letícia de Brito Cardoso

Nascida em 18/08/78 emCriciúma, Santa Catarina . Graduada no Curso Bacharelado em Artes Plásticas na UDESC , Florianópolis, SC, em 2001-1997, e mestre em Poéticas Visuais no Programa de Pós-graduação do Instituto de Artes da UFRGS, Porto Alegre, RS, em 2003-2005.

Realizou orientações individuais com o artista fernando lindote em 2002. participou do Programa Rumos Itaú Cultural em (2001/2003) , do Programa Faxinal das Artes, residência de Artistas Plásticos Contemporâneos na vila de Faxinal do Céu, Pinhão, Paraná, (2002) , "Primavera"Exposição individual na galeria arco em florianópolis em 2006, Exposição "O Museu entre gestos e registros dispersos" individual no Museu Victor Meirelles em Florianópolis em 2006 e entre outras coletivas como no Projeto Trajetórias 3 em Recife, Spa das Artes em Recife, Território da Fotografia em Porto Alegre, Salão Schawke em Santa Catarina

 

 

 




"Sempre a primavera, mas nunca as mesmas flores."
I Ching

Lucila Vilela - artista plástica graduada na Universidade do Estado de Santa Catarina

Primavera. O parque está repleto de flores roxas. Elas caíram no chão. E o vento num suspiro carrega as pétalas que já não vivem mais. Um momento é suspenso. E o ar sustenta alguma beleza que ainda existe.

Envolvida nesta imagem, Letícia Cardoso segue um impulso para desenvolver seu novo trabalho: "Primavera". Depois da tentativa de capturar o vento, a artista hoje tenta capturar o tempo num esforço um tanto impossível. O vento, esse mesmo que fugiu de suas mãos, surge agora flutuando com as flores que, congeladas, tentarão sobreviver por um momento incerto submetidas a um seqüestro quase delicado. E, nessa ilusão de imobilizar uma imagem ou quem sabe tornar estática uma estação dinâmica, surge uma etérea poesia visual.

A tentativa de materializar a percepção de um instante está presente no trabalho de Letícia. Capturar o vento, congelar a primavera, imobilizar gotas d`água e ouvir-se a si mesma fazem parte de um diálogo constante

com a natureza. Suas experiências refletem em sua arte atitudes e processos resultantes da memória de um olhar sensível envolto em espaços naturais.

Essa posse de uma imagem transitória, as flores de uma primavera, faz parte da primeira etapa do processo deste trabalho. As flores são retiradas de seu contexto original e levadas para casa. A artista se propõe a construir pétalas de gelo que, junto à água, se fundem num processo químico que dará forma ao imaginário.

Depois de um tempo submetido a temperaturas negativas, o trabalho é retirado como num ato culinário e saltado de seu recipiente. Assim é visível. Assim ele segue até a sala de exposição. Um local para exibir, observar e questionar. Um lugar de revelação e desaparecimento. Uma potência de vida e de morte.

Outra etapa surge, seguindo a ação de uma natureza interferida. Não existe pausa. "Primavera" não pára de trabalhar. Muda cautelosamente. Conforme o tempo passa e os dias seguem, as temperaturas moldam novas formas que se diluem até desmanchar e desaparecer. O gelo acaba e as flores permanecem, agora judiadas. Após o desaparecimento completo da água, a secura toma conta das pétalas que, neste momento, desidratadas e estáticas, se decompõem. Ficam esquecidas, desfalecidas. Esta "Primavera" acabou. O trabalho agora existe na forma de outras flores em outros espaços, e outro tempo. E assim, prosseguirá também em memórias e reflexões. Em outras primaveras.

Lucila Vilela

Primavera
bloco de gelo com rosas. exposição na galeria Arco ,
parceria com sesc florianópolis, março de 2006

 

  Caminho sobre o fio da lâmina
Fernando Lindote , artista plástico

A proliferações de situações que acontece através do trabalho de Letícia Cardoso se dá em diversos meios, como a pintura, o desenho, os meios áudios-visuais e através de intervenções tanto na esfera pública como privada. Desde suas primeiras produções, Letícia transita entre meios como quem procura atender as especificações de cada linguagem sem se submeter a nenhuma, situando-se longe das especializações, na medida de sua proximidade com a presença íntima do indefinível de uma poética, que encontra a cada desdobramento de sua obra.

Das oportunidades que tive de acompanhar seu processo de elaboração de um trabalho, guardei a certeza de uma atitude especial em relação à produção de arte: Letícia trabalha sem rede de segurança. Nada garante à artista que os interesses aos quais empenha meses de dedicação e afeto irão resultar em algo como o que costumamos ainda chamar de arte. No começo, são pequenas impressões, anotações de textos ou imagens percebidas com uma ênfase ligeiramente diferente das outras tantas situações cotidianas. A partir daí Letícia imerge por meses ou anos sem saber no que irá resultar. Sem saber se desse mergulho voltará com algo para partilhar conosco.

Letícia opera no espaço silencioso onde a natureza, quase bruta, faz esgarçar nossos sistemas de linguagem como ondas na margem.

A matéria de suas obras é como um fio de uma navalha onde a menor ênfase pode desequilibrar a tensão delicada do arranjo. Os assuntos de interesse de Letícia, os materiais que utiliza, os procedimentos que escolhe costumam ser os mais perigosos. O menor descuido pode banalizar a idéia, qualquer grosseria ou pressa pode transformar a obra sentimental ou moralista. Mas Letícia parece ter a posse de um mapa secreto que lhe permite caminhar entre os perigos sem cair nas armadilhas. É uma coragem delicada que conduz os trabalhos de Letícia na sua aventura na linguagem, a qual devemos acompanhar, tal como a artista sem nada nas mãos ou nos olhos como defesa.


Uma maneira de dizer

Victor da Rosa é ensaísta, bacharelando em Letras pela UFSC e editor da Mafuá, revista de literatura em meio digital [ www.mafua.ufsc.br ]

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A artista plástica Letícia Cardoso, que recentemente concluiu mestrado em Artes Visuais pela UFRGS, expõe seu objeto "Primavera", em Florianópolis.
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Roland Barthes, em seu curso "Como viver junto", fala das flores como figuração de um toque poético que se volta para dentro - pulsão que contém traços de uma delicadeza frágil, perecível. As flores morrem em pouco tempo, e estão fadadas a um desaparecimento que, quase sempre, sequer, é percebido. Talvez por isso, por viverem no constante limite entre vida e morte, próximas sempre do falecimento, essas flores vivem com a intensidade de suas cores, a potência de suas pétalas. Essas flores vivem em segredo.

A artista plástica Letícia Cardoso, com seu objeto "Primavera", realiza um gesto, faz uma aposta: alonga a vida dessas flores, adia seus falecimentos. A artista captura pétalas do chão, caídas, quase perdidas para o tempo, destinadas à destruição - e aprisiona todas num cubo de gelo grande, oferecendo a elas, ainda, um sopro de vida. Um movimento para as flores.

Letícia parece realizar um movimento mesmo de olhar para o evidente, e percebê-lo - escutá-lo. Barthes: "Ora, quando a coisa é 'óbvia', é então que se deve atentar para ela (..)". Trata-se de um recorte daquilo que não mais é visto, e que perde sua vida justamente porque permanece abandonado aos excessos do mundo. A partir do momento em que a artista retira uma pétala da rua, do mundo, e devolve precisão a essa pétala, enfatizando sua existência, sua cor desbotada que retorna com a água, a artista devolve também sua potência, e poesia. Ou, somente, uma proteção da delicadeza que resta - as pétalas no gelo, protegidas contra o tempo.

As pétalas funcionam como metonímia de uma primavera extraviada. Trata-se, portanto, não somente de um alongamento da vida dessas flores, mas de uma recuperação da primavera, sua poeticidade - um elogio da estação. Ou um momento para as flores, para a primavera.

Quando o objeto é exposto, porém, o processo é inverso. Se a clausura das pétalas funciona como proteção, pode também, se permanente, funcionar como opressão. É nesse momento, portanto, que as flores devem ser abandonadas, e jogadas, mais uma vez, às vontades do tempo. O cubo de gelo vai à exposição, entregue ao acaso, e o calor o absorve. Outro movimento para as flores.

A dureza do gelo cede, se desmancha, e dá lugar às pétalas. O gelo, após uma espera, deixa de ser pedra - e perde todo seu peso para uma leveza líquida: passa a ser água, e depois desaparece. É mesmo a experiência da espera que o objeto sugere, e requer daquele que o vê - um tempo para revelar-se, e para revelar a primavera. E um tempo para desaparecer.

Na medida em que o gelo vai derretendo, as pétalas se dão a ver, recuperam o extremo de sua vida - e derramada pelo chão, a água carrega as pétalas numa conquista do espaço. Aqui o objeto não interrompe, permanece sempre em atividade, afetando o leitor com a fragilidade de seu deslocamento, num toque. Como nas condições de primavera, tudo muda com uma cautela que dispensa a velocidade, a pressa. E as pétalas, junto com o gelo derretido, agora líquido, desenham um tapete no chão, vão desenhando. Versos de e. e. cummings: "me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre / (tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa".

A artista, com seu gesto, parece enfatizar mesmo um duplo movimento: da mesma forma que procura conservar a vida dessas pétalas, devolver suas cores, seu gesto aponta também para a impossibilidade dessa permanência. Depois de algum tempo no chão, a água seca, e as pétalas perdem seu ânimo, murcham aos poucos, escurecem. E um círculo se estabelece, e fecha: do desfalecimento à revelação e a um novo desfalecimento. O que era proteção, agora é desamparo.

Nesse sentido, o calor é um elemento importante e definitivo no processo. Como o verão, estação que sucede a primavera, e que a devora, o calor, aqui, desmancha a pedra de gelo e seca as pétalas, levando o objeto ao desaparecimento definitivo. Depois de alguns dias em exposição, o objeto vira sujeira, somente, e o que resta é o calor.

O processo a que o objeto é submetido passa, precisamente, pela idéia de prolongamento, e realização de uma vibração que necessita do tempo. A estação é recuperada, dessa forma, não somente pelas flores, mas também pelo movimento do objeto, numa permanente renovação: a procura das flores, sua proteção no gelo, uma nova revelação, seu desaparecimento. Agora há invisibilidade.

Pois é mesmo invisível que o objeto termina, ou não termina. Acabado o processo, a primavera, não há mais nada material no espaço. Há somente na imaginação, e na memória de quem se deixou afetar. Alberto Caeiro: "(..) Mas a Primavera nem sequer é uma cousa: / É uma maneira de dizer / Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes / Há novas flores, novas folhas verdes / Há outras dias suaves / Nada torna, nada se repete (...)." Então a estação se renova, numa outra "Primavera", porque a primavera, no mais, é somente isso: uma maneira de dizer.



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