MUVI - Museu Virtual de Artes Plásticas
Marcela Tiboni
Habitantes da Pintura
2005
Outros trabalhos de Marcela Tiboni

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Outros artistas no MUVI

Marcela Tiboni, a mais jovem artista da exposição, começou sua trajetória artística exatamente se perguntando sobre a possibilidade de expressão a pintura hoje. Sua videoperformance: O Grito, assim como suas fotografias, tratam do convívio íntimo com a tinta e o enorme desafio de se deixar impregnar por esse meio que já marcou muitos séculos de arte. Na performance, Marcela bebe e vomita tinta, deixa-se envolver inteira na busca de expressão com esse material. E reclama, em altos brados, com uma pergunta incessante: "Por que a pintura não grita, por que a pintura não pode gritar?" O titulo remete a famosa pintura do norueguês Edvard Munch, que coagula a angustia expressionista em um momento único e emblemático. Marcela ecoa o fascínio e, ao mesmo tempo, o medo das novas gerações em enfrentar essa técnica tão antiga quanto atual. Sua geração, como as anteriores, tem na pintura um objetivo árduo, mas, em igual medida, um desafio iniciático irresistível. Seja ela realizada nos materiais tradicionais ou não.

Texto escrito pela crítica de arte Angélica de Moraes, também curadora da exposição Pintura Reencarnada, ocorrida em maio de 2004, no Paço das Artes, São Paulo.

Currículo



Habitantes da pintura
Heterodoxia - Latino Americana. 2005


 

MARCELA TIBONI
ARTE COMO EXPERIÊNCIA COM A ARTE


A trajetória de Marcela Tiboni vem constituindo-se de trabalhos nos quais, sob o código da assimilação pela vivência e as experiências decorrentes desta, desvela-se a relação da artista com a Arte.

Suas obras são motivadas pela sinceridade da apresentação metafórica (que toda boa obra de arte carrega consigo) do olhar e do sentir, terrenos privilegiados na seara artística. Desta forma, para Marcela, o gesto do artista ou o olhar do artista se configuram impregnados pela própria matéria da Arte. E, deste modo, nos coloca que a Arte não se encontra apenas no objeto produzido pelo artista, mas em todo o processo desenvolvido por ele, manifestando-se, portanto, no momento da concepção e realização, e, também, na própria fruição realizada pelo espectador.

Em torno desta discussão sobre a Arte, o seu fazer e o seu sentir, a artista cria, de forma pulsante e densa, um breviário que acolhe todas as instâncias que envolvem uma obra de arte e seu fabrico. E assim nos evidencia: Poderia o olhar do artista não estar impregnado pela carga que carrega consigo de suas experiências de sensibilização e reflexão intelectual produzidas com a Arte, sua história, e seus processos? E este mesmo olhar já não guarda em si o gérmen que se constituirá num trabalho finalizado? E o gesto? Este, por sua vez, não é também matéria da Arte, na medida em que ele é elemento participativo do momento da criação?

Questões como estas podem ser postas a partir de trabalhos como 'O olhar do artista' e 'O gesto do artista', ambos de 2003. No primeiro, um olho se apresenta em close em meio a tintas coloridas que parecem emoldurá-lo, mas que também insinuam originarem-se a partir dele próprio. No segundo, mãos aparentam tentar interromper, sob um fundo vermelho, um fio de tinta de mesma cor, que cai. Neste seu deslizar, a matéria, que escoa uniformemente sem vida, parece estremecer ao toque intenso daquelas mãos e insistir em continuar desconcertada seu percurso, ao mesmo tempo em que impregna de vibração cromática os membros obstrutores (ou vitalizadores?!).

Muito para além de ser, como ocorre em muitos casos hoje, um mero comentário a respeito do conhecimento sobre a Arte - fundamentado em informações, muitas vezes superficiais, da História da Arte - ou sem se deixar levar por uma metalinguagem vazia e por resquícios caducos da arte conceitual (que vemos invadir exposições), a obra da jovem artista Marcela Tiboni é dotada de uma sensibilidade e intensidade que atribuem ao seu percurso consistência e propriedade e a torna uma das mais vibrantes a surgir, nestes últimos anos, entre nós.

São Paulo, 2005

Paulo Trevisan - Professor e pesquisador de História da Arte - mestre pela USP

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Como trazer a tona a discussão sobre a pintura, justamente sobre uma das técnicas mais antigas da historia da arte? Aqueles que fazem pintura hoje desafiam e são desafiados a todo o momento, expressar-se através da pintura é abrir-se a inúmeras possibilidades e perceber que praticamente todas elas já foram pesquisadas, e incansavelmente utilizadas.

Escolhi a pintura, não pela minha habilidade com a tinta, mas pelo fascínio e admiração por quem a tem. Minha experiência com pintura se inicia com a experiência com a tinta pura, com a pergunta simples do que é a pintura, e para tal pergunta encontrei minha resposta: pintura é o gesto mais a tinta, foi ai então que comecei a experimentar a tinta e explorar meus gestos. O meio que escolhi para materializar tais experiências não foi a tela, mas sim o papel fotográfico, não o pincel mas a máquina fotográfica. Posso então discutir uma técnica (pintura) que existe a centenas de anos, e milhares de grandes mestres, utilizando outra técnica que existe a pouco mais de 100 anos (fotografia). Talvez a fotografia tenha tido uma presença mais forte e intensa em minha formação do que a pintura, e digo na minha formação não só como artista, mas como ser humano. Sua rapidez, e sua capacidade de captar diferentes imagens em pouco tempo foram qualidades fundamentais e indispensáveis ao meu trabalho.

Pela tinta entendo pintura, e dentro da fotografia me entendo como artista, como pesquisadora e descobridora. Impregnar-me de tinta é como ter a possibilidade de entrar em uma pintura e pesquisa-la por dentro, como se daquele ângulo me fosse mais favorável desvendar seus mistérios, experimenta-los e quem sabe compreende-los. Não só tocar a pintura como experimenta-la de fato, alimentar-me dela, usar de todos os meus sentidos.

Marcela Tiboni
( catálogo da exposição Pintura Reencarnada. )


Nas fotos em que a própria artista aparece vestida com trajes do século XX combinados com rostos do ideal renascentista, Marcela Tiboni abre um diálogo com mestres do passado, reavaliando uma possível relação com a estrutura da pintura do modo como era entendida na renascença e no barroco para o modo como a enxergamos hoje. Traçando uma linha mental na abordagem do conceito de pintura através de mídias variadas como o vídeo e a fotografia, a artista discute as bases e a estrutura da pintura. Avançando na linha do tempo, o diálogo proposto pela artista parece se dirigir a Malevich quando este afirma: "Não pode haver questionamento de pintura no Suprematismo; a pintura foi esgotada há muito tempo atrás, e o próprio artista é uma injúria do passado." Num outro conjunto de fotos, Marcela pratica a desconstrução da pintura tal como proposta por Mondrian, que "postulou, incessantemente, que sua pintura estava se preparando para o fim da pintura - sua dissolução na envolvente esfera da vida-como-arte ou ambiente-como-arte - que ocorreria uma vez que a essência absoluta da pintura fosse 'determinada'".

Texto escrito por Leda Catunda - Artista Plástica. (para o Catálogo da Exposição Tripé, no SESC Pompéia, 2005)



 
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