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"Era uma vez...",
2004
fotografia, 273 x 428 cm (detalhe)
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"Era uma vez...",
2004
fotografia, 273 x 428 cm (detalhe)
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"Era uma vez...",
2004
fotografia, 273 x 428 cm (detalhe)
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"Era uma vez...",
2004
fotografia, 273 x 428 cm (detalhe)
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"Era uma vez...",
2004
fotografia, 273 x 428 cm (detalhe)
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"Era uma vez...",
2004
fotografia, 273 x 428 cm (detalhe)
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"Era uma vez...",
2004
fotografia, 273 x 428 cm (detalhe)
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"Era uma vez...",
2004
fotografia, 273 x 428 cm (detalhe)
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Era uma vez...." 2004
- detalhe da instalação (fotografia
273 x 428 cm
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"Era uma vez...."
2004
livros, objetos, madeira e fotografia - vista geral da instação
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"Artista que
nos anos 60 marcou sua contribuição com atitudes provocativas
no contexto artístico brasileiro - como com a apresentação
de um porco empalhado dentro de um engradado e atado a um presunto,
evidentemente logo roubado pelo público, perante o júri
do Salão de Brasília de 1967 - ou mesmo com o Altar
de Roberto Carlos, do mesmo período, concebendo um ambiente
de adoração e recolhimento em que a imagem principal,
mesclada à religiosidade popular, era do ídolo musical
da juventude da época, este artista foi igualmente autor
de happening de inusitada violência, ao marcar dia e hora
para oferecer ao público o que houvesse no interior da Galeria
Rex, de São Paulo, que encerrava nesses dias suas atividades.
Ao mesmo tempo, Nelson Leirner teve especial predileção
pela apropriação de objetos industrializados, transfigurados
em objetos artísticos com fino senso de humor. Observa-se,
nessa opção, o caráter eminentemente urbano
que permeia sua obra, de que é um exemplo sua criativa série
Homenagem a Fontana. Essa intimidade com os meios industriais o
levaria ao design, paralelamente à produção
gráfica que tem desenvolvido nos últimos anos, em
desenhos de dolorosa carga erótica".
Aracy Amaral
AMARAL, Aracy. Nelson Leirner.
In: MODERNIDADE: arte brasileira do século XX. São
Paulo: Hamburg, 1988.
"A idéia de apropriação,
central na produção de Nelson Leirner, ganharia
acabamento e adquiriria uma feição particular por
volta do ano de 1965, com sua exposição na Galeria
Atrium, com Geraldo de Barros. Em seus trabalhos, essa idéia
conteria tanto a noção de objet-trouvé (entendido
como um objeto já pronto e que, pelos seus predicados,
se destaca aos olhos do artista da massa de objetos anônimos)
quanto a de readymade (de objeto feito em série, sem nenhum
atributo que o diferencie de seu similar e pelo qual se nutre
uma radical indiferença). (...) se o primeiro contempla
o gosto do artista (não o bom gosto, convém destacar),
o segundo tende a anulá-lo. A coexistência entre
ambos é possível, como vem comprovando Leirner,
graças a um raciocínio que permeará todo
o conjunto de seu trabalho e que consiste na realização
de um encontro (poderíamos chamá-lo de cópula,
o artista chama-o de Xeque-Mate) entre dois objetos e termina
gerando um terceiro. Essa fórmula remonta ao célebre
aforismo de Lautréamont: 'Belo como o encontro fortuito
de um guarda-chuva com uma máquina de costura, numa mesa
de dissecação'".
Agnaldo Farias
FARIAS, Agnaldo. NELSON Leirner.
In: TRIDIMENSIONALIDADE na arte brasileira do século XX.
São Paulo: Itaú Cultural, 1997.
"A cena internacional, nos anos 60,
estava tomada pelas performances. Mais precisamente, Leirner mostra-se
afinado com o tema da comercialização da arte, dos
trâmites da produção até a recepção
crítica da arte. Qual o 'negócio' subjacente à
assinatura do artista, os vários certificados e documentos
que legitimam a fabricação de uma autenticidade,
eram indagações recorrentes em Yves Klein, Ben Vautier
(do Grupo Fluxus) e Claes Oldenburg. Buscavam cercear uma garantia
de verdade da arte. Le Magasin (início dos anos 60) e The
Store (1961-62), dos dois últimos respectivamente, envolveram
procedimentos familiares a Leirner. Cada qual à sua maneira
procurou estabelecer uma paridade entre o objeto da arte e um
produto de consumo na sociedade capitalista. Pertence a essa linhagem
de happenings o convite de Leirner em oferecer gratuitamente suas
obras ao público que foi ao evento Exposição-Não-Exposição,
no encerramento da Rex Gallery & Sons.
A necessidade de desmistificar o objeto artístico prosseguiu
na série Homenagem a Fontana (1967), grandes lonas coloridas
em que o zíper ironiza o rasgo já canonizado: qualquer
um passa a poder abrir ou fechar o plano pictórico. Para
conceituar o valor da arte (território do 'nome próprio'),
Leirner pôs à venda os seus 'fontanas' ('nome comum')
conforme a crítica resultante de sua planilha de custos,
submetendo, portanto, a obra a uma aula doméstica de economia.
Assim, deslocou a discussão da arte como gesto inaugural
(o nostálgico mito do original) para o gesto repetido,
serial. Anos depois, seguindo a mesma esteira, fez uso de um jornal
de grande circulação para transmitir o modo de fazer
múltiplos de seus múltiplos. Tratava-se de extrair
o processo aurático da criação e aproximar
a arte da simplicidade da 'tecnologia do cotidiano'. Democratizar
o produto do artista merece um espetáculo. Nesse sentido,
é preciso cotejar o slogan de Leirner com méta-matics
de Jean Tinguely, de 1959, ao proclamar 'faça você
mesmo e crie sua própria pintura abstrata'. À pergunta
de Michel Foucault, 'O que é um autor?', Leirner rebateu
com uma reflexão prática, que inclui uma densa experiência
como professor, e iniciou uma conturbada relação
com o aparato ideológico responsável pela institucionalização
da arte (a crítica, o museu, a galeria, o mercado)".
Lisette Lagnado
LAGNADO, Lisette. O combate entre
a natureza fetichista da arte e sua historização.
In: PEDROSA, Adriano (Org. ). Nelson Leirner e [and]) Iran do
Espírito Santo: 48. Biennale di Venezia - Padiglione Brasile.
São Paulo: Fundação Bienal de São
Paulo, 1999. p. 42-43.
"Para uma análise da questão
da autoria da obra e da autoridade, do gesto eleitor do artista,
é necessário ressaltar que apesar de apropriar-se
de imagens e objetos preexistentes, Leirner não tem interesse
no silêncio e na neutralidade dos readymades originais.
Exemplo flagrante dessa intenção é fornecido
pelas três instalações realizadas entre 1984
e 1986, reunindo centenas de objetos que iam desde anões
de jardim, brinquedos baratos, insetos de borracha, santos de
gesso até animais de plástico, organizada por categorias
como procissão sinuosa espalhada pelo espaço expositivo.
Objetos artesanais e industrializados, de colorido intenso e apelo
kitsch, dispostos com solenidade, evocavam senso de humor distanciado
da frieza do racionalismo de Duchamp. Cada um dos objetos escolhidos
o foi por estar investido de carga emocional, quer pela alusão
à piedade religiosa (entendida no sentido mais ecumênico
possível), quer pela ingênua aspiração
ao pseudo-requinte, pelo sentido lúdico ou pelo realismo
caricato. Dessa forma, as mesmas peças podem repetir-se
em momentos diferentes, mas passam a compor em O Grande Desfile,
1984, os fetiches de uma marcha triunfal; em O Grande Combate,
1985, transformam-se em épico com bombardeios plásticos
na vanguarda, e o gesso dos anjos guardiões na retaguarda,
que em O Grande Enterro, 1986, viraram integrantes de cortejo
compungido. (...)
A dessacralização da arte aparece em seu percurso
como uma das formas de viabilizar a existência da própria
arte. Alterações e referências satíricas
a uma obra considerada marco indiscutível da história
da arte sempre são acompanhadas de manipulações
com exclusão e adição de elementos, configurando
uma situação de xeque-mate. Se a situação
limite deixa entrever a aniquilação de seu alvo,
de acordo com a teoria de Leirner, a união de dois elementos
deve gerar um terceiro que tem até significado próprio
quando a operação chega a bom termo".
Maria Isabel Branco Ribeiro
RIBEIRO, Maria Isabel Branco.
Nelson Leirner. In: POR que Duchamp? Leituras duchampianas por
artistas e críticos brasileiros. São Paulo: Itaú
Cultural: Paço das Artes, 1999. p. 60-61.
Textos retirados de: www.itaucultural.com.br
Era uma vez uma estante
- Nelson Leirner renova a habilidade em bagunçar padrões
É um alívio que as artes visuais no Brasil não
se tenham rendido ainda à vasta domesticação
da cultura indicada por seu atrelamento ao que hoje recebe o disfônico
rótulo de o social. Agora se quer usar a cultura para formar
cidadãos, conter a violência, gerar emprego, promover
a ecologia. Políticos dizem já ter um "índice
de exposição à violência" que
lhes dirá como fornecer aos jovens a dose certa de cultura
que os livrará do mal. Não quiseram, no passado,
apoiar a cultura e a arte por aquilo que são e agora, em
desespero de causa, recorrem a simulacros de uma e outra que não
farão nem uma coisa (diminuir a violência), nem outra
(funcionar como cultura e arte).
A cultura até pode servir para objetivos desse tipo, conservadora
como é por natureza. Mas a arte, como exceção
à cultura, poderia e deveria preservar-se dessa manipulação.
Botero pôs sua pintura gordita protestando contra a violência
na Colômbia e o resultado não passa do nível
de charge de jornal. A questão é mesmo de nível.
Goya abriu-se para o social. Mas goyas não surgem todo
dia.
No Brasil, é sorte ter Nelson Leirner corroendo a cultura,
o social e a arte. Com ele, nada de politicamente-corretos e de
quotas para o social ou para a "expressão nacional",
ao contrário do que pede o Gilberto Gil ministro da cultura
quando, de modo inesperado (quando se pensa no tropicalista dos
anos 60 que ele foi) e infeliz, chama a arte contemporânea
brasileira de "elitista" por sustentar-se em "paradigmas
internacionais, sem ligação com a expressão
nacional". Há aí uma incompreensão arcaica
do que é arte contemporânea. Mas isso é tema
para outro artigo. Por ora, baste insistir: Que alívio
que em Nelson Leirner tudo seja confrontado, inclusive a "expressão
nacional", seja o que isso for.
Na Galeria Brito Cimino, seu jogo chega a extremos. Estará
à venda uma estante na qual Leirner costuma acumular os
objetos que em seguida usará em suas obras: bonecos de
gesso, revistas, reproduções da Mona Lisa, latas
vazias. Agora não há mais nem obra a ser mostrada
e vendida, mesmo que feita de lata velha. O que se mostra e vende
é a matéria prima da obra. Transformam-se em arte
a matéria prima da obra e o lugar onde ela se estocava
enquanto não virava arte. Agora virou. E quem não
puder comprar essa grandiosa museum piece, pode levar uma foto-objeto
de arte, em tamanho real, da estante da arte que é arte-
foto que garante ser de arte a obra fotografada e que com isso
mesmo garante a si própria como sendo também de
arte...Nem mesmo o processo é proposto como arte: é
o estágio anterior a ele que se consagra como de arte.
Era uma vez muita coisa.
E quem for ao Instituto Tomie Ohtake verá coisas de arregalar
os olhos. Penso em Trabalhos feitos em cadeira de balanço
assistindo televisão, com fotos de bebês nas quais
o artista fez intervenções pra lá de audaciosas,
coisas não vistas nos supermuseus americanos nem nas bienais
européias que perderam o senso do risco. Leirner não
descasca os bons sentimentos: esfola-os. Quiseram proibir essa
peça no Rio, anos atrás. Mas a arte brasileira,
cansada de intolerâncias, resistiu e a obra foi mostrada.
Perto dela, os horrores dos irmãos Chapman e da coleção
Saatchi são brincadeira de criança.
Numa ala mais amena do ITO, porém também corrosiva,
está a série do Construtivismo rural, feita com
esses tapetes de pele de vaca com que a classe média econômica
ou espiritual enfeita suas casas de campo ou suas residências
da periferia endinheirada. Algumas peças são mais
rudes; outras, mais refinadas, mais bonitas: a ironia visível
naquelas esfuma-se nestas embora o resultado possa ser aqui ainda
mais zombeteiro (a menos que o artista tenha caído em sua
própria armadilha...). Seja como for, é um chute
na canela da cultura mediana, do sistema da arte e do construtivismo
(ou concretismo) que, pelo menos um instante, se esborracha no
chão. Não creio que Leirner quisesse despertar a
massa e a elite para os recursos estéticos da pele de vaca
e para o lado matérico da arte natural: ele sugeria, mais
uma vez, que víssemos com outros olhos a arte sofisticada
(e sofisticada em grego quer dizer falsificada, bom lembrar...).
Mais do que propor a pele, trata-se aqui de tirar o pelo. Gracias,
Nelson.
Na Retrospectiva depois da retrospectiva, o visitante verá
leirners de boa safra como os Sotheby´s e Assim é...se
lhe parece (cuidado ao dizer que nessa está, sim, o social:
é possível que aí se veja, antes, o avesso
do social). É mais na Brito Cimino, porém, que se
mostra o lado bem contemporâneo de Nelson Leirner. A começar
pela participação da galeria no processo. A arte
feita no Brasil era uma antes da bienal de São Paulo, outra
depois e uma terceira quando as galerias entraram no jogo com
agudo senso de profissionalismo e foram para o mercado internacional
das feiras, das quais muitos curadores, museus e bienais viraram
tributários, mais que o inverso. Diante do provincianismo
da política cultural de Estado no Brasil, a iniciativa
das galerias é hoje a força por trás desta
arte. Sua intervenção é decisiva até
na produção da arte. Como Jeff Koons, Nelson Leirner
muitas vezes dá apenas a idéia da obra: a produção
é problema e opção da galeria, ele nem toca
na peça.
Encarar a arte de Nelson Leirner continua um desafio: para o público,
para a galeria, para o social, para ele mesmo. Ainda bem. Com
ele, se respira. Ainda que ar demais corte a respiração.
COELHO, José Teixeira. In: Bravo! junho 2004. Editora
Abril:São Paulo. pp. 90-91.
Retirado de
www.britocimino.com.br
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