Lendo Arte
Imaginação
Eduado Ribeiro da Fonseca
Artistas participantes do projeto MUVI
Textos e entrevistas Saiba mais sobre a história das artes plásticas no Brasil Projetos parceiros do MUVI Saiba mais sobre o MUVI Links Recomendados mande um mail para o MUVI
Outros Textos












Outros artistas no MUVI
RELAÇÕES ENTRE AS NOÇÕES DE ARTE E CONHECIMENTO

Aristóteles não concebia uma faculdade de imaginação que não fosse uma mera ordenação das percepções num sentido único. Em De Anima e também na Poética existe uma literalidade de relações, uma pretensa objetividade factual, que não pode explicar nenhum ato ou processos criativos. E que, naturalmente, não dão conta do real da realidade como atividade fabulatória, e até mesmo sonambulesca, no sentido dos comandos pulsionais, e onírica, do ponto de vista das formações e linguagens do inconsciente. Na verdade, como escreveu Rilke nas Duineser Elegien, "para nós não há amparo nesse mundo definido".

E esse é todo o problema do idealismo alemão: Por um lado, atividade pura da vida se manifestando como mundo efetivo e, por outro, mundo como criação da subjetividade.

É esse binômio kantiano o que esclarecerá os caminhos da filosofia alemã: entre aquilo que pode ser pensado e aquilo que deve ser feito, move-se a razão humana.

Enquanto Kant interdita o acesso da linguagem filosófica a certos domínios do discurso, como crítica à metafísica e ao dogmatismo, Fichte, por outro lado, critica em Kant justamente o modo de expressão de sua filosofia: uma insuficiência de linguagem, uma dificuldade de adequação entre aquilo que é pensado e aquilo que é efetivamente escrito.

Para o idealista, a letra do autor da Crítica da Razão Pura não corresponde ao espírito de sua filosofia. Sendo então entendido por Fichte, sob os protestos de Kant, que o filósofo de Könnigsberg teria querido dizer "outra coisa".

A necessidade de Fichte de eliminar a noção de coisa-em-si do vocabulário kantiano é digna de nota nesse sentido. Justamente esse incômodo, isto é, qualquer coisa que não pode ser pensada, então nem coisa pode ser, o incondicionado, é aquilo de que prescinde Fichte, por considerar esse conceito uma expressão dogmática da filosofia de seu mestre.

Tudo isso evidencia que quando a razão ascende aos seus limites, as coisas ficam tão indefinidas quanto no dito de Rilke. E quanto de imaginação não é necessário para preencher os espaços vazios da racionalidade. Por isso, a atividade filosófica parece a Nietzsche uma grande expressão da vida pulsional, como predomínio do impulso fundamental que anima inconscientemente o filósofo. Ou, na letra freudiana, a filosofia é a expressão da personalidade do filósofo.

Assim, pode-se dizer, seguindo esse raciocínio, que se a arte só utiliza conceitos para a subversão da linguagem ou para a sua transmutação, mesmo aquelas artes do conceito, a filosofia e a ciência, têm no seu fundo a atividade de metaforização da vida e do mundo que lhes deu origem.

Assim, a arte é a linguagem por excelência, aquela à qual todas as outras devem se remeter, reconhecendo o problema do conhecimento para além da lógica e percebendo no pano de fundo da existência o mundo efetivo incomensurável, irracional do ponto de vista do entendimento humano, sublime pela sua grandeza, inconstante, fugaz, mas, também, puro ímpeto; pura konstant Kraft.

Mas, existem problemas sérios que advêm do perspectivismo dessas observações: Do ponto de vista existencial é preciso suportar o peso da efetividade que não é governada pelo bom telos, que não possui fundamento racional e na qual todo conhecimento diz de outra coisa, de um x desconhecido ao qual as relações não abarcam, isto é, não se pode dizer o que é cada coisa a não ser dizendo uma coisa que não é a coisa. Esse problema assume sua dimensão quando Dostoiewski formula um questionamento ético que exigirá resposta: "Se Deus está morto, então tudo é permitido". Assim, desgovernado, o mundo humano terá que escolher entre o fundamentalismo e o dogmatismo das concepções, e a possibilidade de fundar uma ética da inconstância, uma ética da afirmação do fatum da existência.

Do ponto de vista da arte como problema e como conceito, o que pode uma estética? Na verdade, a estética só pode constatar o que o artista impõe como verdade. A estética normativa é uma pretensão, pois não pode colocar por si mesma o problema da arte, mas sim unicamente responder às indagações que são originários dos atos e obras do artista.

Surge então, do ponto de vista deste artista, a necessidade de colocar o mundo como verdade e subjetividade, redefinindo a cada vez os conceitos de mundo, verdade e subjetividade. Missão que não se completa antes que esse criador possua grandes objetivos, por um lado, e os meios de alcançá-los, por outro. E aqui fica apenas subentendida a questão da técnica e de sua necessidade para a consecução do mundo. E não se trata de uma simples utilização de recursos, usos e costumes habituais, mas sim de uma atividade que sempre faz a própria técnica começar a sinalizar e responder, pelas suas transformações, aos dilemas próprios do fazer artístico.
Os caminhos que se esclarecem a partir disso, não são necessariamente abarcados pelo criador durante a atividade de criação, do ponto de vista conceitual, mas correspondem, antes de tudo, a esse dizer que instaura o dito, o fazer que instaura o feito. E que ao invés de provocar uma reação uniforme, engendra a pluralidade de interpretações, além de exigir a reinterpretação dos referentes anteriores e do próprio mundo da arte como possibilidade na história.

Existe então toda uma hermenêutica da interpretação que não pode jamais ser desconsiderada, sob o risco de se barrar o caminho da reflexão sobre a arte, fixando-a no reino dos meros conceitos, como letra morta. E isso não tem a ver com arte como coisa viva.

Design da página: Fábio Channe
PARCERIAS:
Projeto POLVO Projeto de Extensão Artista na Universidade Teatro Monótono Projeto Heterodoxia Projeto para a Construçao de um Desenho  -  Marlon de Azambuja
 
 

É expressamente proibida a reprodução do conteúdo desta página sem a autorização do artista ou da Coordenadoria do MUVI