Lendo Arte
Didonet Thomaz
Diálogos com Tânia Bloomfield
OPUS
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OCUPAÇÃO RECOBRIMENTO ESCULTURAS EXPURGOS
Centro Cultural São Francisco, João Pessoa, PB - 06 a 30/09/2000

UFRN NAC, Natal, RN - 3 a 25/05/2001
Museu de Arte Sacra de Curitiba - PR -29/07 a 09/09/2001
ICBRA - Instituto Cultural Brasileiro na Alemanha, Berlim, Alemanha, de 02 a 22/02 de 2002


OPUS

OCUPAÇÃO RECOBRIMENTO ESCULTURAS EXPURGOS

Tânia Bloomfield1


Diálogos (Org.) Didonet Thomaz2


Resumo: O Projeto OPUS iniciou sua trajetória no Centro Cultural de São Francisco, João Pessoa/PB (06-30 set., 2000, com o lançamento da Plaquete I, contendo os Diálogos N.°1 e N.°2); em seguida foi apresentado no Núcleo de Arte e Cultura-NAC, Universidade Federal do Rio Grande do Norte-UFRN, Natal/RN (03-25 maio 2001, com o lançamento da Plaquete II, contendo os Diálogos N.°3 e N.°4); foi exposto no Museu de Arte Sacra-MASAC, Curitiba/PR (09 ago.-09 set., 2001, com lançamento da Plaquete N.°3, contendo os Diálogos N.°5, N.°6 e N.°7) e seguiu para a Bienal do Mercosul, Porto Alegre/RS (10 ou.-16 dez., 2001).


Figura número 01


Figura número 02

Diálogo N.°1 - 18/06/2000 - 19h00min.
Você pode retirar a venda dos meus olhos?

Didonet Thomaz: O que você está materializando no tempo invisível?

Tânia Bloomfield: Um calendário, de marcação repetitiva mas sintética... é um recorte no tempo, fora do modelo social, para estabelecer uma linha de fuga no imaginário.

DT: Do recorte no tempo, emerge no espaço, uma forma sólida e composta sob a pontuação do número sete.

TB
: Uma fileira de travesseiros retangulares, um colado quente no outro, pelas pontas, na vertical, compõe um módulo de sete. Na totalidade, um conjunto de onze módulos de sete compõem um território de saliências e reentrâncias e vazados; de setenta e sete peças relacionadas entre si, na horizontal, também. Ao encostar o conjunto numa parede, emergem do espaçamento positivo-negativo... desenhos variados. Quero essa geografia porque resulta em acréscimo de luz e de sombra, na criação.

DT: Cada travesseiro está amarrado com um arame fino e nenhuma amarração é no mesmo ponto. É proposital?

TB: É proposital. Tencionar cada travesseiro em determinado ponto releva a linha metálica sobre o tecido branco, além de formar um plissado nesses limites de compressão, alterando a forma no singular e no plural; interessa o fato de o objeto escultural sustentar a sua materialidade. Estou interferindo para que entre em harmonia... inteiramente, pelos próprios fragmentos, cada travesseiro é um fragmento da ocupação toda.

DT: Observando isoladamente um travesseiro, é imanente a possibilidade maleável da sua forma; do arame fino, a possibilidade de resistir - são corpóreos de atrativo, de permissão e desejo simbólicos. Por quê? A vontade-força humana é necessariamente urgente para alterar com objetividade estruturas em repouso aparente. E harmonizar com ressonância, mais ainda... É ingênuo dizer é assim. O que mais você quer?

TB: Um duplo querer por caminhos inversos: quero que o travesseiro seja conformado pelo arame e quero, também, conformar o arame ao redor do corpo do travesseiro.

DT: Finíssimo anel... variando o peso do travesseiro, isto é igual a um travesseiro+arame = contraste de matérias aglutinadas em processo de conformação. Você poderia ter escolhido, novamente, um fio de náilon para cada travesseiro.

TB: O fio de náilon escapa, solta e acaba por sair do lugar. Quero que seja fixo o metal remanescente; opressor que vem diminuindo de valor pelo tamanho, volume, formato pelas seleção das matérias... É um objetivo tentar me livrar do metal, corroído de propósito, corroído pela ação do tempo, ou não corroído, simplesmente puro.

DT: Sobre a cor branca.

TB: Olhei a cor... tinha que ser branca.

DT: Por quê?

TB: Porque o simbólico vem crescendo no meu trabalho. E o branco é um código representativo; mas branco sobre branco é disciplina de impacto para um conceito de luz-sombra em construção. Eu quero construir para o resplandecer do olho em atitude.










Diálogo N.°2 - 27/06/2000 - 19h00min.
Para onde você está me levando?


TB: Não é uma ironia... permanece a questão do metal que aprisiona outro material. De fora para dentro, da grade para o travesseiro, que mede 0,65cm por 0,45cm, o objeto escolhido para ser capturado. Mas há uma sobreposição de poros, contrastantes. E, por meio dessa trama feita por produtos industrializados, ocorre um vazamento de ar - tanto pelo metálico da grade, como pelo sintético do tecido... até chegar na espessura da espuma interna do travesseiro. E então parece que ocorre uma exaustão e em seguida o rebote torna-se inevitável. É algo mais próximo do orgânico... é uma respiração condicionada. Se eu quisesse mostrar essa prisão contundentemente, teria fechado todo o metal...

DT: É uma ironia? Fale mais sobre esse compartimento.

TB: É racional. O caminho vai da grade ao arame. A simbologia da opressão é muito forte, o que me angustia. A grade está mais próxima dos meus trabalhos anteriores, das caixas metálicas comprimindo objetos dentro... No caso do travesseiro com a cinta e do travesseiro com o arame, a forma escapa para os lados... há uma adequação à opressão; ao mesmo tempo, uma sobrevivência a ela. Mas ainda não está livre.

DT: Você comprime o travesseiro num compartimento feito justamente para colocá-lo dentro; e mantendo a forma, permanece inteiro. Travesseiro = "Almofada de paina, penas, lâminas de cortiça, etc., que se estende ao longo da testeira superior do leito e serve de apoio à cabeça de quem se deita: Aurélio, 2000". A escolha do objeto é racional?

TB: Há um descompasso no trajeto, tal como na testeira das relações humanas.

DT: É um trajeto - com paradas obrigatórias para concluir etapas anteriormente interrompidas; assim, você confeccionou primeiro o travesseiro com arame, apesar de ser este um raciocínio posterior ao processo de confecção do travesseiro com grade. Cortar-torcer um pedaço de arame fino pode ser uma tarefa individual; mas cortar tiras de metal largo e grosso para dar solda de ponto formando xadrez exige mais de um prático. No caso, você e o serralheiro/soldador fazendo um cruzado. São preocupações de pessoas diferentes para modos e tempos diferentes de execução. Enquanto você pensava na possibilidade de estouro do ponto de solda, surgiu a forma intermediária, a do travesseiro com cinta ou escultura aparentada para um diálogo de meio.

TB: As idéias, às vezes, antecedem o lugar da visão; espaços amplos e abertos para ir e vir - são linhas de fuga. Isso tem ligações intrínsecas com a submissão à concentração e não-dispersar, puxa de volta. Pensei sobre cada função que o lugar já teve... igreja, convento, escola, hospital... hoje, um centro cultural... quer dizer, instituições de disciplina. Para que se verifique o arranjo do espaço no tempo a ponto de provocar a pergunta "para onde você está me levando?", mais uma sensação naquele que vai ver... travesseiros, corpos em fila, pendurados nas paredes, nos tetos... sim, o espectador tem que sair a cata de um nível para o olhar, para o céu disponível ao campo visual...

DT: Exibir a circularidade de um ato-pânico, como nos "pescadores e o turbilhão". O que mais você quer?



Figura número 4



Fig. N.°1. Fileira de travesseiros com arames (fragmento da Ocupação).
Fig. N.°2. Travesseiros com arames - Espaçamento positivo-negativo.
Fig. N.°3. Travesseiro com grade metálica corroída (fragmento da Ocupação).
Fig. N.°4. Travesseiro com grade.
Fig. N.°5. Travesseiro com cinta metálica corroída (fragmento da Ocupação).


Os diálogos primordiais foram utilizados no processo de conhecimento da OPUS; sendo mantida sua essência, posteriormente, foram reorganizados sob influência da leitura de BATESON, Gregory. Metadiálogos;. CALVINO, Italo. Seis propostas para o novo milênio. DELEUZE, Giles. PARNET, Claire. Diálogos. ELIAS, Norbert. Sobre o Tempo; GOETHE, J.W. Doutrina das Cores; LESSING. Laooconte.

02/08/2000 - 14h55min.






Diálogo N.°3 - 15/03/2001 - 22h41min.
O que vejo me pertence?


TB: Está perdida a falsa sensação de controlar limites... No começo ,corri arás do travesseiro branco... na minha frente, o que mais posso tirar dele? Como se mostra enquanto resposta às minhas inquietações sobre aprofundamento? Antes, a questão formal ancorava aquelas de caráter simbólico, o trabalho pedia mobilidade por estar envolvido em rigidez, é isso que está se mostrando... Num segundo momento, o comentário é outro, o que se coloca? É como se o alinhamento de travesseiros falasse: "estivemos conformados, vamos dar uma volta pela parede, ver o tipo de reação que causa em quem vê...". A entrada na próxima parede? Vejo como a possibilidade de percorrer o espaço inteiro e voltar para o ponto...

DT: O desenho do compartimento define uma figura geométrica=retângulo, quadrilátero formado por linhas retas, compactadas irregularmente. Assim sendo, o proveitoso do espaço desdenhado enquanto inteireza é apenas uma parte da nebulosa tinta branca capaz de comprimir a turbulência provocada pela Ocupação paralela; justamente, onde o ângulo de duas das quatro paredes flexibiliza o percurso dos fragmentos da fileira única, sendo concentrada a dramaticidade da questão no recorte minimal do território adjacente, como se fosse um livro quase aberto, de aparente fundo infinito. O que você quer? Cruelmente, promove um paradoxo, advertindo sobre uma hipótese de movimento encurralada. É pelo menor número de fragmentos que se inicia o abstrato passeio "para voltar ao ponto", ou pelo maior, o avançamento através da massa de ar?

TB: Talvez eu tivesse que ir para uma outra linguagem para mostrar uma movimentação mais contundente, mas, pela natureza dos objetos, neste momento, a sugestão de movimento é o bastante. A primeira coisa que vi em relação à direção foi da direita para a esquerda; os travesseiros se movimentando nesse sentido, apesar de que, acidentalmente, pode-se pensar o contrário...

DT: O alinhamento de travesseiros com grades concerne a uma cena já vista?

TB: Sim, mas num contexto diferente. Insisto que apesar de usar matéria supostamente indestrutível, ou que demora para ser destruída, de me manifestar em escultura, preferencialmente, essa premissa sempre esteve em todos os meus trabalhos. Nas mulheres que tinham a minha estatura, como se fossem clones. A proposta fica no lugar de, momentaneamente, ou logo a seguir - não posso precisar em que tempo - efemeridade?Não, ao contrário...
O cânone não estabelece uma diferença radical entre ocupação e instalação no sentido de tomar posse de, mas a primeira expressão tem boa leveza para este ritual de passagem, menos ilegal, um pecado perdoável.





Diálogo N.°4 - 22/03/2001 - 22h21min.
Posso imaginá-lo, se o tenho?


DT: A incidência da luz sobre os materiais superpostos vai imprimindo um xadrez desparelho na superfície dos travesseiros; sangrados pela ferrugem castanha da grade, passivos da alteração da sua nebulosa retangular. Do tecido a descoberto, diz-se sujeira desse amarelado que emerge débil, não uma cor propriamente dita, proveniente de escolha; nem a outra, traiçoeiramente 'branca', que ficou sob o metal, na sombra. É esse o princípio casual da gravura e da fotografia? A disciplina de impacto, de branco sobre branco, desequilibra-se no processo de exposição&guardamento dos fragmentos: travesseiros 'bons' poderiam substituir os 'ruins', os metais polidos conservariam a pureza monocromática. Não! Agora, o olho em atitude resplandece diante da desconstrução do conceito primordial de sombra-luz.

TB: É possível percorrer um caminho e não conhecê-lo; conhecer sem conhecê-lo... Eu poderia ter usado a cor preta para fazer valer um contraste acentuado com o branco, mas seria explícito... A cor castanha que vem de oxidação é uma possibilidade de mostrar que existe uma relatividade na questão da oposição, é conflituosa, a diferença não é tão absoluta...

DT: E como se não bastasse, o contraste de temperatura provocado pelo vai&vem, umedecendo e ressecando a espuma interna do travesseiro, transforma o leve, num mais pesado. Sem toque, a massa se redistribui, favorecendo a formação de relevos não homogêneos, num trecho ou outro, do objeto que vai murchando lentamente, como um bolsão que se esvazia ao render-se.

TB: A forma e a cor ali se complementam. A corrosão do metal continua acontecendo e marcando.

DT: O simulacro está inchado da morte?

TB: Dentro da arquitetura do Centro Cultural São Francisco, a montagem dessa Ocupação tomou uma dimensão grave... a questão da morte está presente, sim, aqueles corpos pendurados na altura de dois metros, do final do travesseiro, para baixo até o chão, remetiam à tortura, imediatamente, à morte... São torsos, só torsos, sem membros... carne pendurada em ganchos, esse tipo de referência...

DT: Precede de modo imediato a visão do holocausto - travesseiros com arames, travesseiros com cintas, travesseiros com grades, amontoados numa redoma - um recuo do fragmento. A imagem certa ajuda?

TB: Ajuda o artista, ou aquele que está emitindo... pode ser uma desvantagem para o receptor, uma mensagem imposta, não aquela que ele quer pegar.




Fig. N.°6. 8 Travesseiros em ângulo de 90° - hipótese de movimento encurralado.
Fig. N.°7. Ocupação 2 - 40 travesseiros com grades metálicas corroídas.

Os diálogos primordiais foram utilizados no processo de conhecimento da OPUS; sendo mantida sua essência, posteriormente, foram reorganizados sob a influência da leitura de FOUCAULT, Michel. As Palavras e as Coisas, Arquitetura do Saber; WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações Filosóficas, Zettel, O livro Azul, O Livro Castanho, Anotações sobre as Cores; e do roteiro de Matrix, The Wachowski Brothers.

02/04/2001 - 18h07min.













Diálogo N.°.5 - Tarde (MASAC) - 26/06/2001


Fuga N.°1 - 12/06/2001 - 23h45min.

Tânia Bloomfield: Pudor é um conceito variável... Posso ser pudica fazendo coisas execráveis e condenáveis do ponto de vista social e me sentir pudica...

Didonet Thomaz: Na obra de arte entra o pudor?

TB: O pudor entra na percepção, ou na sensação de ter excedido o ponto ótimo onde devia ter parado... Na situação do espaço que vai se tornar cênico, o que está por trás é coberto por causar uma interferência, não sei se tem a ver com o pudor... Tem mais a ver com a questão da limpeza... Ligando a palavra limpeza ao pudor, as duas idéias, talvez... A minha vontade é de um isolamento visual de toda a interferência que possa ocorrer na obra...


(Casa tomada - luz acesa)
DT: O que é o agora?

TB: Agora é um incômodo perceber que tenho mais um dilema que ultrapassa o meu próprio trabalho... Vou ter que repensar toda a ocupação...

(Casa tomada - luz apagada)
DT:O que é o agora?

TB: Agora é lúgubre... Sem a luz artificial é como se a realidade pudesse vir mais crua... Estamos num lugar sem as possibilidades do contemporâneo... A luz entra pelas aberturas e não chega de maneira suficiente... Há uma espécie de passagem para um outro tempo... É um lugar histórico que tem uma sacralidade e talvez nem devesse ser ocupado da maneira como está...

(Casa tomada - luz acesa)
DT: O que é o agora?

TB
: Agora é falso... Cores, relação volumétrica, percepção espacial se alteram com lâmpadas dicróicas...


Fuga N.°2 - 03/07/2001 - 10h35min.
DT: O que é isto?

TB
: É uma peça (Fig. N.°8) que tem a minha altura, com duas chapas levemente abauladas, uma na frente e outra atrás... Cabe um travesseiro dentro... Prenuncia um corpo representado pela haste-coluna que dá vertical do corpo, pelo tripé que faz às vezes do pé e pela vestimenta-armadura... Para que a figura possa ficar ereta é necessário que haja uma estrutura de sustentação... Não precisaria ser, mas o metal é uma constante no meu trabalho... Houve uma trajetória até chegar nessa peça, como num gradiente... O serralheiro tinha feito o ombro reto, querendo tirar o canto vivo para que as pessoas não se machucassem... Eu falei não, o cortante tem que ficar porque é o que não fere contra o que fere e está fora, o exo-esqueleto... Com a distância entre as duas chapas, próximas uma da outra, pedi para ele alargar mais para que o travesseiro pudesse ter um conforto...

DT. Você articula o conceito de contraste... A materialidade conseguida pelo uso-não-uso do metal esgota-se em cada ato voluntarioso, depois tanto faz... O que entendo como experiência mais livre de preconceitos para revisões, é uma estupidez pensar em definitivo... Neste caso, há reforço do uso do metal e o objetivo de tentar eliminá-lo parece ter perdido o sentido, se não fosse a tangência de um fragmento-travesseiro... Caberiam dois naquele oco? Claro que sim...

DT: Por onde você começou a fazer a peça?

Raulindo Brusamolin: Pelo pé e pelo corpo, tem que pensar tudo junto... É só uma chapa 24 fina a frio, com o tubo três oitavos, solda elétrica, solda ponto numa estrutura metálica...

DT: Qual a diferença entre ver um material descoberto e vê-lo através de uma máscara?

RB: O que mais impressiona é a solda... A partir do momento que se joga a solda, pode-se ver a cor verde por causa do vidro da máscara...









Diálogo N°.6 - Manhã (MASAC) - 03/07/2001


(Casa tomada)
TB: O lugar combina com a falta de luz... Pensando nas peças, talvez, a escuridão ou a penumbra favorecessem mais o arranjo da mostra...

DT: Qual a possibilidade da vidraça que divide a torre da Igreja ao meio servir para indicar uma seqüência produtiva entre passado-presente? Na parte de cima poderiam ser colocados os primeiros torsos, pendurados a uma altura que sugerisse ascensão no sentido de que o que foi feito não precisa ser repetido... Embaixo, aproveitando a sucessão de ogivas, ocupá-las agora com os resultados derivados...

TB: Não me apego às coisas... Nascem, desenvolvem e morrem... Tudo na vida tem uma trajetória...

DT
: Quero acreditar que você provoca renovamento&morte&constância ao mobilizar geração&destruição...

TB: Expurgos são coisas deixadas para trás, ou expelidas de uma maneira não ordenada, não sistemática, não regular e isso me incomoda... Tenho a necessidade e a vitrine demanda um ordenamento... Expondo alguma coisa, uma coleção, objetos, de uma maneira que se apresentem, ou apresentem um determinado pensamento, ou intenção daquele que está ali colocando... Pensei nas paredes dos ex-votos, impressiona... É uma maneira desordenada de colocação de coisas, o oposto da vitrine...


Fuga N.°3 - 26/07/2001 - 14h40min.
(Casa esvaziada)
DT: Fale do probjeto-OPUS... Você está para iniciar um outro ritual de passagem ao ocupar esta casa/ edificação/ habitação - de objetos, santos e memoráveis - que estava tomada por 'outramente' ...

TB
: Quando vou fazer uma exposição penso, sempre, que o projeto está pronto e não é o que está se configurando... Ontem, umas imagens foram surgindo e me surpreendo porque estou rompendo com o modus operandi... E de continuar criando quando, na minha cabeça, a coisa deveria estar acabada...







Diálogo N°.7 - Noite (MASAC) - 27/07/2001

(Ocupação - luz apagada)
DT: É noite, a porta está fechada e a claridade entra de cima para baixo, pelo visor da torre... Observo um universo de figuras-sombras suspensas, outras parecem levitar porque a base-chão está a maneira negra... Um tenebramento... Abstrações?

TB
: Remete ao tempo ancestral... Perpassa a história como uma memória... São figuras arquetípicas....

DT: Ao tateá-las sinto a aspereza da ferrugem...

TB: Não tem importância... Faço o que tenho que fazer, sinto urgência... Os expurgos da vitrine (Fig. N.°8) tinham que sair, materializaram-se dessa forma...

DT
: É possível compenetrar o olhar na sombra da sombra da sombra de dois... quatro... seis... oito fragmentos = travesseiros brancos conformados por arames traídos por luxuosas protuberâncias; expurgos = lâminas chatas e triangulares, telas, chapas dobradas e redobradas, retalhos de grades, pequenas caixas, arames torcidos e retorcidos, cilindros, retângulos, semicírculos, microgaiolas... A sua intenção se definiu ao recolher e organizar o que encontrou disperso na serralheria, como se não pudesse ser diferente...

TB
: Sugiro a contundência, a possibilidade de esses expurgos terem sido os causadores das deformações nos fragmentos... Lembram uma mesa cirúrgica, instrumentos de tortura, mas são alusões... Amarrar com arame é quase-neurótico, interessa... A caixa de retalhos, eles dão possibilidades, interessa... Ah, me encaixo aqui, ali... O tarô tem figuras isoladas que funcionam em conjunto... Mais ou menos essa lógica...

DT
: Efetivamente o espaço tornou-se cênico, porque você recobriu parte da arquitetura da casa com um biombo de tecido plissado (o mesmo do forro dos travesseiros), envolvendo uma estrutura metálica quase na medida do pé direito da parede paralela original que não pode ser tocada... O espaço construído remete a um teatro de sombras, circunstanciado à movimentação no local, em alguns momentos... O que existe além dessa descrição ligeira?

TB
: Um artifício (Fig. N.°10) pela necessidade de melhor orientação para as peças perfiladas do lado direito de quem sai do corredor, descendo o degrau e chegando próximo da vitrine... Elas podem ser movidas e colocadas em angulações diferentes...

DT: Retornando para a porta de saída, olhando para cima constato que a hipótese curatorial, realizou-se formalmente... A seu modo, você separou o passado-presente como a vidraça (Fig. N.°9) que divide a torre da Igreja ao meio... Debaixo para cima, decidiu pela ocupação dos espaços vagos entre as placas, as escadas... Não cessou! Mandou colocar três torsos como se fossem estranhas ventosas nas paredes ao redor da ogiva... Subindo com outros deles, seis ao todo foram amarrados num estrado, com o propósito deliberado de tê-los jogados de volta na redoma...

TB: Em alguns momentos, a gravidade, a física, ajuda a segurar os objetos embaixo... Mas o que está dentro doa grade, o travesseiro, tenderia a subir por se tratar de uma matéria mais leve... Mas o contrapeso é forte, segura, não deixa que as peças vão para onde querem ir... Por quê? Por estarem ainda ligadas ao material...





Houve uma troca consciente de faces entre a Tânia e eu. Sabíamos, desde o princípio, que seria necessário fazer sacrifícios para que OPUS continuasse emergindo via raciocínio de ambas, tentando chegar através de uma nova semântica, onde dizem que a arte está. A transcrição das gravações ocorreu normalmente, exceto no trecho da 'Noite', quando se operou in loco um distúrbio na rotação do gravador. As vozes que saíram dele eram as nossas, mas estavam transformadas, não sendo possível afirmar se eram masculinas ou femininas... Sobre vozes, um outro fato ocorreu num dia subseqüente quando eu aguardava na porta do Museu de Arte Sacra e ouvi um murmúrio ininterrupto... Distraída, fechei os olhos e pensei - quem ora, quem canta tragicamente insinuante? Não havia fenômeno, dei por mim... Confundindo-se com a reza dos fiéis na Hora do Angelus, o repertório musical da Ocupação - de onde estão as esculturas, os fragmentos, os expurgos - dissipava-se na frieza do Largo da Ordem.






Os diálogos primordiais foram utilizados no processo de conhecimento da OPUS; sendo mantida sua essência, posteriormente foram reorganizados sob a influência da leitura de BATAILLE, Georges. A Santidade, o Erotismo e a Solidão; CORTÁZAR, Julio. Casa Tomada; HEGEL, Georg. A Fenomenologia do Espírito; HUSSERL, Edmund. Investigações Lógicas; PONGE, Francis. O Murmúrio, Parti Pris des Choses; RICOUER, Paul. A Metáfora Viva, O Mal, Outramente; e da música de PÄRT, Arvo. Tabula Rasa.

14/08/2001 - 14h15min. - Curitiba


Fig. N.°8. Grande angular (a peça citada é a primeira da direita). Fig. N.°.9. A torre dividida. Fig. N.°10. Artifício cênico.


___________________
1 BLOOMFIELD, Tânia. Artista. Especialista em História da Arte do Século XX, Escola de Música e Belas Artes do Paraná-EMBAP, 1998-2000.

2 THOMAZ, Didonet. Artista. Especialista em História da Arte do Século XX, Escola de Música e Belas Artes do Paraná-EMBAP, 1999-2003. Mestranda em Poéticas Visuais, Escola de Comunicação e Artes-ECA, Universidade de São Paulo-USP/SP, 2004.

3 Nesta etapa, antes de proceder à organização dos Diálogos N.°5, N.°6 e N.°7, foram verificados os interditos referentes à Igreja da Ordem 3ª de São Francisco das Chagas, ao Museu de Arte Sacra da Arquidiocese de Curitiba e ao Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural. Agradecemos ao Pe. Aleixo W. de Souza (Cúria Metropolitana); à Ana Lucia Ciffoni e Ana Karla de Queiróz Barboza (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba-IPPUC); à Cassiana Lícia de Lacerda e Guilmar Silva (Fundação Cultural de Curitiba-FCC); ao Prof. Dr. Luiz Renato Martins pelas referências bibliográficas sobre Fenomenologia; ao Le Senechal, pelas fotos e à Antônia Schwinden, pela revisão das plaquetes.

4 Os Diálogos N.°5, N.°6 e N.°7 foram publicados no jornal Gazeta do Povo. Curitiba/PR, 02 set., 2001, Caderno G, p. 12.

5 Revisão de Texto: Antonia Schwinden.

6 Fotografia: Ivonaldo Alexandre, Le Senechal, Roberto Coura.

7 Design: M. Betti.

8 Técnico de Computação: Helton Tessari Brandão.

 

Design da página: Fábio Channe
PARCERIAS:
Projeto POLVO Projeto de Extensão Artista na Universidade Teatro Monótono Projeto Heterodoxia Projeto para a Construçao de um Desenho  -  Marlon de Azambuja
 
 

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