Lendo Arte

Talita Esquivel entrevista
Edilson Viriato

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Outros artistas no MUVI

Entrevista realizada por Talita Esquivel com Edilson Viriato
Em 17 de Setembro de 2003

Talita - Como você define hoje o seu ateliê? E como descreveria o seu ensino? Quais suas características?

Viriato
- Nossa! três em um. Como eu definiria o meu ateliê? Acho que é um material, um espaço aberto a todos que queiram saber um pouco mais sobre arte, principalmente arte contemporânea. É um espaço aberto para qualquer pessoa, não tem restrição, e que queira saber um pouco do que eu sei, do que eu posso passar, do que eu posso ser útil, até ela seguir o caminho dela sozinha, e que eu acho que é super importante. A outra característica...

Talita - É. Quais as características? Como você descreve o seu ensino?

Viriato
- Olha, eu não gosto por exemplo de ser chamado de professor, um mestre, porque não é a forma que eu trabalho, não é uma escola. É um ateliê aberto, é livre, é meu ateliê, que eu abri e dei espaço para outras pessoas usarem e discutir a poética do seu próprio trabalho. Então isso que eu acho que é mais interessante, o que difere dos outros. Eu não tenho fórmula e não tenho receita, cada um segue seu caminho.Se você trabalha mais e seguir dentro de uma produção, dentro de um contexto de arte na qual eu tento me expressar pra você, você vai subindo degraus, isso é importante.Eu demorei muito para saber, por exemplo, como andar por um salão, como agir em algumas questões dentro da arte, como mandar um portifólio para pedir uma exposição, e isso algumas escolas e faculdades não fazem. Então o que eu faço é passar isso para ela fazer, em vez de ela ficar quebrando a cabeça sozinha em casa, ela lá no ateliê vai ter isso. Facilitar. Ou seja, eu não quero que você passe por um processo sofredor pra se tornar um artista, mas sim, não tem uma receita, mas eu posso te direcionar, pra que você seja um artista. Agora se a minha maneira de pensar e de agir é certo ou errado, isso só o tempo vai dizer. Eu acho assim, nenhum ateliê em Curitiba ficou tanto tempo. Um ateliê particular, ou seja, nós estamos no 11º ano,são 11 anos de batalha, e hoje nós criamos um respeito.

Então, acho que o que caracteriza isso, uma, é a união de todo mundo, de todos os artistas que participam, que já passaram, não ter uma rivalidade, não ter rixa, não ter nada, e serem super importantes, e todo mundo ser muito amigo, acho que isso é legal.

Talita
- Isso que eu ia te perguntar agora. Você é um dos poucos artistas que vem desenvolvendo trabalho em Curitiba em ateliê. E também o seu ateliê é um dos poucos que funciona há tanto tempo e com tantas pessoas que procuram o ateliê, tem bastante, tem umas oitenta não é?

Viriato
- Mais ou menos.

Talita
- Então, como você justifica essa procura? O que você acha que está faltando? Essa procura você acha que está diretamente relacionada com sua forma de ensino? O que você acha?

Viriato - Ah, claro. Se não fosse isso acho que ele não duraria tanto. Mas acho que principalmente o respeito que eu tenho pelo outro, pelo trabalho de quem está me procurando. Então eu tenho que respeitar este artista, as suas individualidades, a sua poética, a sua maneira de ser. Eu não posso colocar todo mundo junto, sendo todo mundo igual, porque ninguém é igual a ninguém, então eu dou um tratamento individual pra cada um. Há um tratamento "olha que tal você fazer isso? Que tal você fazer aquilo? O que você acha disso?" Vamos questionar tudo isso, vamos fazer. Eu tenho uma coisa que é meio que pôr fogo nas pessoas "não, você vai fazer." "nossa, maravilhoso". O artista chega "fiz isso aqui", ai eu digo "está maravilhoso, está ótimo, fantástico, me faça mais 20". Eu nunca me contento com aquilo só, você vai ter que fazer mais, você vai ter que produzir, se você não leva, eu vou brigar. Então isso estimula a fazer, mas não a fazer só, a mostrar também, sabe? Pôr a cara a tapa. Isso tudo acho que é super importante no ateliê. E essa acho que é a grande diferença. Esse diferencial dos outros ateliês, porque eu nunca precisei fazer propaganda, não sei o que é fazer propaganda do ateliê, nunca fiz. Em meu ateliê desde 93, 92/93, nunca deixou de ter tanta gente, e cada vez ampliando mais, não sei, meu sonho um dia é ter uma fundação como a Tapies em Barcelona, mas,sei lá, a gente está levando, as coisas estão indo, mas acho assim, a minha parcela dentro da arte hoje, principalmente da arte do Paraná é legal, a Nilza fala pra mim que....
Talita - Quem é esta Nilza?

Viriato
- Nilza Procopiak, que é crítica de arte. Ela falou numa matéria no jornal, que o ateliê precisava virar uma instituição já! E de que um dos grandes acontecimentos na arte do Brasil seria o ateliê, e que as pessoas ainda não pararam pra ver isso. Porque a gente querendo ou não querendo, a gente mexeu com tudo, com a estrutura toda de salões, com a estrutura das exposições, com a estrutura governamental, e não só daqui, a nível nacional mesmo. As necessidades as vezes do salão em estar com 100 escritos e de repente chega 80 do ateliê, sobe pra 180 escritos, ou seja, nós fazemos um volume grande, isso é interessante, isso é importante. As pessoas ainda esperam, estão esperando isso e os resultados também são bons, senão eles não correriam atrás.

Talita
- De onde surgiu a idéia de você fazer um ateliê?

Viriato
- Surgiu a partir do momento que eu volto da Inglaterra, e visito a Goldsmith, e vejo a maneira como eles ensinam lá. A faculdade é completamente diferente da nossa, não tem, é completamente oposta. Então lá, é assim, você pega tem vários galpões. Pra entrar na faculdade você já tem que ter um trabalho, você manda um portifólio, você é analisado pelos professores, eles formam uma turma de 15 alunos, esses alunos cada um tem... São vários galpões em volta da cidade, e no centro é o prédio da faculdade. Os melhores alunos, que eles acham que já tão mais elaborado, vão para cada um. Pode escolher qual galpão que ele quer ficar, o mais próximo da casa, e o último fica onde sobrar. Por exemplo, se ele mora lá do outro lado ou do outro lado, ela vai pegar outro. E a maneira, então eles te dão uma verba "x" tanto, um valor, e você vai ter que fazer o que? Você vai ter que ir lá convidar um psicólogo, um critico quem você queira pra ajudar o teu trabalho, e você ganha aquele espaço, você vai ter que trabalhar. De cada 3 em 3 meses, tem que apresentar uma exposição, tem uma exposição pra você apresentar, e é discutida entre o pessoal do teu galpão. De cada 6 em 6 meses é discutido com o pessoal da faculdade e no final do ano você tem que mostrar um individual da tua produção toda, e defender tudo isso, além de que a faculdade oferece tudo, laboratório ou tudo que você pode imaginar.
Talita - Você estudou lá?

Viriato
- Não, eu não estudei. Foi aonde a Carina estudou. Mas eu comecei a vivenciar isso, ir lá, ver, participar de algumas exposições, visitar e eu falei assim "putz". Quando eu voltei pro Brasil, eu falei "nossa, está tudo errado aqui". Ai fiz, voltei, fiquei quieto no meu canto. Geralmente, algumas pessoas pediam pra eu orientar. E quando as pessoas pediam assim "ah, Viriato, fala do meu trabalho". Pô, mas eu estudei, vou falar do teu trabalho, vou falar de graça? Não, vou cobrar pra falar. Porque eu estou dando, eu não consigo chegar e falar pra você "olha, teu trabalho está ruim" e pronto, não, teu trabalho está ruim mas vamos melhorar ele, que tal você pôr isso, que tal você pôr isso, que tal não sei o que, não sei o que, não sei o que... Vamos mudar aqui..., eu ia dando idéias, pô. Então é a mesma coisa que se você for ao médico e é uma consulta, você não paga? Você vai ao dentista, você não paga? Advogado, não paga? Porque então você pede uma opinião minha você também não tem que pagar? Eu sou um profissional tão qual como outro. Então eu falei, alguma coisa está errada, mas nesse momento faço teste na Belas Artes. A Karina volta de Londres e a gente faz junto o teste na Belas Artes. Eu passo em tudo, currículo melhor..., não sei o que. Quando eu vou para aula prática, ai eles ficam assim enlouquecidos, porque eu entro dentro da sala, a banca, eu entro
dentro da sala, eu faço uma gravura em estampa vestida de Carmen Miranda, fazendo ticaticabumba, doideira, e a banca fica horrorizada com tudo. Ai enfio a mão dentro da lata de tinta, bato na parede e aparece a primeira imagem. Eu falo da fase da caverna, aquela coisa toda da gravura, da história da gravura. Eles ficam horrorizados com tudo, eles olhavam pra mim com... Ai quando eu estou fazendo a explanação da minha aula, um da banca falou assim..., começou a escorrer a tinta, "vai sujar o carpete". Pra que. Ai eu parei e falei assim "o negócio é o seguinte, isso é uma escola de arte ou é uma escola de maneiras e modos como a Socipar ou Senac? Eu acho que está na hora de mudar essa questão toda, você me passando ou não passando não vai me influenciar na maneira de eu ser, então vocês gostando ou não gostando, vocês vão ter que me engolir até o final", e foi até o final, e dei a palestra e daí que... (expressão) mais ainda, e passou. Eu estava num vernissage, ai chega os professores que estavam na banca, outras pessoas e dizem "você não passou né?" Todos felizes. Eu tinha passado em tudo, menos na parte prática. "Não passou tal, tal, tal, mas olha você tem que entender que a escola é moderna, não, que a escola é tradicional e você é muito moderno." Eu falei "olha, eu gostaria de dizer pra vocês que eu não sou moderno, o modernismo aconteceu em 22, então eu não sou moderno, então, eu posso ser vanguarda, posso ser contemporâneo com os meus contemporâneos, posso ser qualquer outro nome, menos moderno, assim, não sou." Eles ficaram tudo meio ofendido. Ai eles disseram "a gente está aqui pra te convidar para dar um curso de extensão universitária." Ai eu falei "o que?" Na hora eu fiquei contente, mas ao mesmo tempo eu me espantei "curso de extensão universitária?" Ai eu falei "ah, legal, obrigado mas vocês estragam 4 anos o aluno e querem que eu conserte em 1". Falei muito obrigado, mas eu não quero (risos), e não aceitei, e sabe de uma coisa. Eu vou trabalhando, pedindo pra que eu orientasse, abrindo ateliê, abrindo não, fui orientar as pessoas, orientando no ateliê delas, orientando no meu, e ai começou, e ai foi ficando mais gente, mais gente, mais gente, e tem hoje muita gente, e hoje eu vivo disto. Eu vivo da minha orientação, eu vivo também da venda mesmo.

Talita - E qual que é o objetivo das suas aulas?

Viriato
- Das minhas orientações?

Talita
- São direcionadas? Por quê?

Viriato
- Olha, uma, é que eu acho assim, tudo que eu aprendi eu gosto de passar pra frente, eu tenho essa coisa de professor, mesmo não sendo professor, mas, tudo que eu aprendi eu gosto de passar pras pessoas, e não ficar. Não quero morrer e levar essas coisas comigo, comigo não, não tenho isso, eu quero que as pessoas briguem, eu quero estar do lado, brigando junto, porque se você aparece, eu vou aparecer junto. Por mais que você esconda, todo mundo vai saber que você passou, então não precisa nem dizer.
Talita - Não tem um direcionamento Viriato nas suas aulas?

Viriato
- Direcionamento em que sentido?

Talita - Direcionamento para salão de arte,para exposições, ou pra...

Viriato - Você entra no ateliê e faz tudo, se você quiser, mandar pra salão, vem, eu não faço nada, mas você pega o pique de todo mundo fazendo. "Eu quero só trabalhar e você me direcionar, eu não quero mandar pra nada". Ótimo.

Talita
- Então você ajuda o aluno artista a começar assim?

Viriato
- Claro, eu vou ter que fazer com que você abra os olhos pra tudo, chega até a mudar. Porque meu ateliê foi criticado, por exemplo, "ah mas tem muita gente de idade, tem muitas senhoras, tem muito não sei o que, que deveriam que estar tomando o chá das cinco. Falo, uma, essas senhoras são as que pagam, porque a maioria dos jovens não tem grana para nada, não tem, então eles se aposentaram e vão, agora o que impede, se Tomie Ohtake é a dama da pintura brasileira e começou com quarenta e poucos anos de idade. O que custa os outros também começarem a enxergar de maneira diferente e querer mudar? Não são seres humanos como os outros? Só porque não são jovens? Elas têm o mesmo direito de todos, e melhor ainda, tem grana para isso, já trabalharam a vida inteira. Vão fazer isso com gosto, porque estão fazendo aquilo que querem. Então isso eu acho importante e tem outra coisa, eu tenho que viver também, então eles têm que pagar. Então eu cobro. Claro.

Talita
- Então, mas não é pra qualquer um não é? Porque não estou dizendo que não valha, mas é um preço alto.

Viriato
- Eu acho assim, quando você tem um objetivo, você escolhe coisas e coisas. Você deixa de comprar uma calça da moda, e você pode ter minha orientação, porque meu ateliê dá oportunidade de você fazer 2, 3, 4 vezes orientações no mês. Então, é só você querer. Dá pra todo mundo fazer, não é assim destinada a uma classe "x" social, não é claro, quem tem grana fica mais fácil, mas quem não tem também dá, é fácil. Então por exemplo, tem o Marlon, é um artista do ateliê, o Marlon não trabalha, então o Marlon se vira, mas ele deixa de fazer um monte de coisa, ele deixa de comprar um calça da Fórum, da Sexxe. De sair à noite, em vez de sair quatro vezes no mês, sai duas. Pra poder pagar o ateliê. Então é uma opção que você faz de vida, ou você quer ou você não que. Você tem que saber o que você quer dentro da sua trajetória, se você quer ser um artista, você tem que se opinar, e saber o que você quer dentro disto, então, eu acho super importante isso.

Talita
- E você acha que essa ajuda que você dá também justifica a procura cada vez maior pros artistas estarem procurando sua orientação?

Viriato
- Olha eu não sou lindo, não sou modelo, não tenho um rostinho bonitinho, então, só pode ser pelo meu profissionalismo.
Talita - Ah, sim. É que eu não tinha perguntado antes, eu tinha entendido outra coisa...

Viriato
- Claro que eles vem em busca do meu trabalho, do que eu faço, de ser sincero. Porque você chega, eu não fico enrolando, eu não gosto, não gosto. Eu não vou te agradar porque você está me pagando. Muito pelo contrario, este ano expulsei dois do meu ateliê. Mandei embora, eu não quero, chega, vai embora. E pagava muito bem, tinha ganhado muito bem, mas eu não gosto de desrespeito entre um e o outro. Quando alguém começa a virar estrela, entende não é? Porque ninguém é mais nada que ninguém, agora tem que ter um respeito dentro.

Talita - Existe algum teórico, algum pensador, historiador, algum artista que influencia a sua prática como orientador pessoal? Talvez escola...

Viriato
- A Goldsmith me fez com que eu abrisse para esse lado, mas só, não tem. A Marisa foi minha mestra, foi a única que me orientou, me orientou muito bem. Me lembro quando comecei a trabalhar com arte, eu não tinha grana, eu não tinha material, eu pintava com terra e pagava o curso, entende? E eu ia pro ateliê com terra. Um monte de terra colorida e pintava com terra, e ganhei prêmio, essas coisas todas. Eu
não tinha grana. Ai quando acabava as aulas, eu via as paletas penduradas numa parede, ai eu ia raspar todas as paletas e colocava na minha, porque eu só tinha 3 cores, uma azul, uma vermelha e uma amarela, porque meu pai disse que não ia me dar mais nada. Ai eu raspava de todo mundo as tintas e no outro dia, era óleo não secava, eu tinha todas as cores. Então quando ele viu meu terceiro quadro, ai ele comprou tudo. Ele falou "ãhã, leva jeitinho" ... não sei o que... mas antes eu precisava raspar a paleta dos outros, pra precisar fazer a minha paleta. Então quando você quer, você abdica de algumas coisas pra fazer outras.

Talita
- Na sua opinião é possível formar artistas?

Viriato
- Como qualquer outra profissão. Agora se você vai ser um bom artista depende de você. Se formar é fácil, passar a técnica é fácil, como qualquer outra profissão, cabeleireiro, um médico, um dentista, agora se você vai ser bom não sei. Se eu quiser fazer medicina, eu posso fazer, se eu vou ser um bom médico eu não sei.

Talita
- Você forma artista em seu ateliê?

Viriato
- Se se forma? Eu acho que sim, senão não teria tantos ai brilhando, expondo em galerias e sendo reconhecidos.

Talita
- Você intencionalmente trabalha com conceito de salão de arte, com a própria finalidade de se fazer arte? E por quê?

Viriato
- Não, eu só acho, eu acho assim que o salão é um motivo propulsor pra você produzir. Você vai produzir um monte de coisa para deixar guardado dentro de casa? Não. "Olha vai ter salão do pequeno formato no Pará da Unama, por exemplo, que tem todo ano. Pô, você vai fazer um quadrinho, vai pesquisar pra fazer uma coisa pequenininha pra quê? Porque você sabe que vai ter que mandar. Você não é obrigado a fazer pra mandar, mas isso vai te impulsionar a querer fazer pra mandar. Porque senão você nunca vai querer fazer um trabalho pequenininho. Ai testa o potencial. "Ah, só pinto telas grandes". De repente vou fazer telinha pequenininha. "Mas eu não sei fazer tela pequenininha". Mas o salão só aceita pequeno, então você vai ter que saber se você realmente é bom na coisa ou não, porque o verdadeiro artista faz tudo, de tudo quanto é jeito.
Talita - Mas você acredita que o seu ateliê, o trabalho que você faz com os seus alunos, você está criticando alguma forma de se ver a arte, de fazer a arte?

Viriato
- Jamais, a gente só está mostrando mais uma maneira. Porque eu não critico nada, nenhum momento a gente quis criticar, nenhum momento nós querermos agredir ou mudar. Não tem isso.

Talita
- A sua intenção é engajar seus alunos na arte contemporânea? Você transforma a obra dos seus alunos em arte contemporânea?

Viriato
- Olha a grande maioria que me procura, são artistas que vem de outros ateliês, com formação acadêmica. Então, o que eu faço é mostrar o outro lado da história. Eu tenho um exemplo maravilhoso, assim, que é a Jacira, do Jayabujamra. A Jacira é uma senhora, que hoje tem setenta e poucos anos de idade. Quando ela começou a trabalhar comigo, o trabalho era completamente acadêmico, e ela foi pra fazer arte contemporânea, e eu além de transformar ela, num olhar diferenciado... Hoje Jacira já entrou em vários salões importantíssimos, ela foi a única que entrou no salão Santo André há dois anos atrás com júri de críticos que eu achei que não ia entrar ninguém.
E ela entrou, com uma visão completamente contemporânea, passando pelo crivo de Agnaldo Farias, Lizete Lagnado, Rodrigo Naves. Quer dizer, a arte tem idade? Não, não tem. Mas ao mesmo tempo não foi só isso, chegou no ponto da família se mobilizar e olhar de maneira diferente. Ela não é mais uma dona de casa, ela é uma artista plástica. Ela assume isso, então a família mudou o questionamento dentro da família. Mudou de tal maneira que chegaram a montar um espaço para ela que é o Jayabujamra que hoje eu dirijo, de homenagear ela, de colocar o nome dela no espaço. Agora você acha que é uma coisa errada esta, fazer com que as pessoas vejam e comecem a se sensibilizar por uma arte pela qual as pessoas fora não sabem. Não, tem não! Eu acho que não estou fazendo nada errado. Pelo contrário eu estou contribuindo, porque nós temos uma arte educação defasada. Na qual as pessoas só querem ganhar dinheiro. A figurinha perfeita e não estou fazendo um outro olhar, ou seja, eu consegui colocar uma pessoa pra fazer, uma pessoa pra mudar o gosto. Do fazer e aprender, a fazer e não parar por ai. Pesquisar para poder fazer. Ela mudou a família e a família hoje respeita ela como artista e que hoje tem o seu espaço que abriga um monte de gente. Quer coisa mais maravilhosa do que isso? É um grande exemplo do ateliê chegar a mudar a família inteira. O questionamento de uma família interia, de chegar a montar um espaço, não só ela como a... e outras situações que acontecem, isso que mobilizaram toda a uma família. Então eu paro e penso, tipo "não estou errado com o que estou fazendo."

Talita -
Você tinha dito que você é bastante criticado aqui em Curitiba. Daí eu queria saber se você e seus alunos sofrem preconceitos. Seus orientados sofrem algum tipo preconceito aqui em Curitiba ou de galerias, alguma coisa...?

Viriato
- Olha, nós já sentimos, já passei assim pra caramba, se disser que não, estou mentindo. Passei muito, muito mesmo "a turma do Viriato, a turma não sei o que", mas era tão complicado porque eles não sabiam de quem que era, eles só descobriam de uma maneira, quando chegavam tudo junto. Porque a gente chegava junto que era mais em conta. Chegava tudo junto, então era do numero tal ao número tal veio do ateliê. Ai o que eles faziam? Eles não sabiam de quem que eram as obras. Mas daí o júri pegava para sacanear a gente falava "qual que é o numero que começa do pessoal do ateliê? Ah vai até que número? Tal." Então eles sabiam qual que era. O que que aconteceu, eu não sou nenhum bobo, mandava então, um grupo agora, um grupo depois, outro grupo depois e manipulei tudo.

Talita
- E também pra eles verem o trabalho e não de onde que vinha.

Viriato
- Ai entrava do mesmo jeito, mas não só isso, tinha uma hora que não tinha jeito, por mais que eles olhassem daqui a aqui, eles olhavam o nível dos trabalhos, eles viam que o nosso nível era mais alto, tanto..., era obrigado a colocar, entende? Por quê? Porque não tinha. Então claro que eu sofri pra caramba, assim, de dar de dedo, de a Secretária da Cultura chegar e "que que é? Que que tem? Você me ama, me odeia, quer transar comigo? Que que é que se tem? Que você está colocando os outros, os outros artistas que não tem nada a ver com a minha pessoa por acaso". E hoje nós somos respeitados, nós temos nossos artistas que trabalham com grandes galerias aqui em Curitiba, não só aqui mas fora também. Os salões hoje mudaram a cara, são super respeitados, nós somos respeitados, ainda tem uma coisa assim, mas eles engolem legal agora. Mudou um pouco.

Talita -
Enquanto eu fiz aula com você eu não presenciei muita discussão artística na sala, assim por exemplo, o aluno a escolher o nome, o por quê do nome, o que a obra está passando, o que ele quis passar, o que ela passa, a diferença. Daí eu fui numa reunião do grupo Unha e vi uma coisa completamente diferente, toda uma discussão é, crítica, todas as exposições que estão acontecendo na cidade, eles põe dúvidas ao público, pra também compartilhar com o público as dúvidas e tentar adquirir respostas. Queria saber se você se considera um eclético em relação ao que o aluno quer, ao que ele procura na aula?
Viriato - Olha, é claro. A partir do momento que eu me dispus a fazer uma orientação individual, eu estou sendo eclético. Cada um tem uma maneira de pensar e de fazer, então eu estou sendo, claro, super eclético. Mas eu acho que o mais importante foi a mudança do ateliê, conforme foi passando os anos. Então, antigamente as pessoas iam pro ateliê só pra pintar, hoje elas não querem ir só pra pintar, elas querem pra pintar e querem discutir. E agora elas não querem só pintar e discutir, elas querem pintar e discutir, e principalmente discutir os trabalhos dos outros e delas. Então, houve uma peneiração de pessoas que estão indo só pra desenhar/pintar, ou só pra que eu oriente o trabalho dela, ou só pra fazer um vídeo ou uma fotografia, não, ela está indo pra saber mais. Então nós temos um projeto agora, que é projeto que o ateliê faz, que são os grupos. Então além de você trabalhar individualmente, você trabalha como grupo. Todo mundo faz o mesmo trabalho junto, pinta uma tela tudo junto, mas não só isso, discute arte todo mundo junto, que é o Hunha, que vem do movimento Sinergia. Então esse ano a gente fez um trabalho que foi bárbaro, assim, eles tem que voltar até o ateliê do artista, é..., eles filmam o artista, fazem o material gráfico, e apresentam, e é feito assim, os três grupos escolhem o auditório no qual eles apresentam esse artista pra

todo o ateliê. Então eles fazem um documentário, então ai o que eles fazem? O material é cedido uma cópia pro MAC, pro setor de pesquisa, pro ateliê e o artista também recebe através de uma homenagem que é feita, mostrando o vídeo dele, tal. Isso repercutiu muito, e esse ano nós fizemos com 9 artistas, o MAC ficou agradecidíssimo com esse material, porque tem uma fita de vídeo, tem um documentário, tem um material gráfico e alguns tem CD Rom ainda. Então é bem legal, e sempre atualiza o trabalho do artista. Antes de fazer isso, de eles irem até o artista, eles tem que fazer uma pesquisa sobre o artista, discutir quais são as perguntas e não só isso, ele chega até o artista como aluno de faculdade, que vai lá "por que você faz isso, por que não sei o que?" Não, ele chega como artista pro artista, porque uma, ele conhece toda a trajetória dele. Conhece o currículo dele, conhece a forma de fazer, então é diferente a conversa. E não vai um vai um grupo, então é legal também isso, reforça. Então essa coisa do ateliê é muito jóia. Assim, desse projeto que a gente está fazendo e agora a gente está fazendo o Projeto Crítico, o que eles estão fazendo? Cada grupo pegou dois críticos. Eles estão entrevistando um crítico, montando a vida do crítico toda e pegando opiniões de 5 artistas ou 5 pessoas próximas a esse crítico pra dar depoimentos sobre ele. Então virou o contrário, não é o crítico que vai falar do artista, são os artistas que estão falando dos críticos, e não só isso, nós vamos até a casa do crítico, e a gente filma a casa dele, porque você fala tanto de arte e o que você tem na sua casa? Então você já está indo dentro da casa pra filmar a casa deles. Então a gente agora em Novembro, vai mostrar isso, vai mostrar os 6 críticos de Curitiba, vamos tentar reunir uma grande exposição no Jayabujamra, aberto a toda comunidade. Vamos tentar reunir os 6 e mostrar..., e fazer homenagem pros seis, e mostrar a casa deles, então, e também, esse material vai pro MAC, vai pro ateliê e cada crítico vai receber também o material.

Talita -
E são duas coisas diferentes, as aulas de pintura entre aspas que o pessoal vai lá pintar e esse trabalho que você passa, não é? Então isso que eu falei não presenciei foi as ..., durante assim a pintura você dá bastante orientação, mas a discussão artística formal eu não vi com você.

Viriato
- O perigo está na gente não cair na escola, porque o ateliê não é uma escola.

Talita
- Você orienta o trabalho.

Viriato
- Oriento o trabalho. Você é que tem que correr atrás, mas eu senti uma necessidade. As pessoas vinham muito procurar isso, então eu falei, não, então vamos embora, não só isso, eles vão visitar exposições como você presenciou. Eles vão visitar exposições depois eles voltam, é legal assim é bem interessante, e discute-se a exposição, mete a boca.

Talita
- Por que você só trabalha com tinta acrílica?

Viriato
- Não, não trabalho somente com tinta acrílica. Além da tinta acrílica, o pessoal trabalha com óleo, trabalha com aquarela, trabalha com textura, trabalha com tudo, esmalte sintético, tanto é que o meio produção é tudo assim, tem de tudo, é eclético. Agora o porquê do acrílico? Pela possibilidade de recursos que você tem. Uma, você pode aquarelar, você pode por mais tinta, você pode misturar textura, você pode fazer o que você quiser. No óleo você não consegue isso, além de tudo não é tóxico, é fácil de limpar e seca rápido, que é melhor ainda.

Talita
- Quando eu entrei acho que você falou pra eu comprar acrílica, eu falei que pintava a óleo, você falou não, compre acrílica.

Viriato
- Sim porque eu queria..., porque a maioria depois que começa a fazer acrílica, nunca mais pega óleo, raramente pega óleo. Só quem for muito apaixonado pelo óleo, mas dependo do que quer fazer também. Mas tem gente que pinta óleo sim, tem bastante gente que faz óleo, tem gente que faz os dois, tem gente que não se adapta ao acrílico e tem que pintar a óleo. Agora num ambiente no qual tem às vezes 8 a 10 pessoas juntas, alguém pintar óleo, um terror, não é? Porque o cheiro é muito forte, já pensou todo mundo fazendo óleo, uma doideira.

Talita -
Queria agora que você me explicasse um pouco o processo das aulas. O processo dos ensinamentos, a ordem das aulas, o que as pessoas aprendem em cada ano. Falasse um pouco dos primeiros trabalhos que você passa, aqueles que eu fiz. E em quanto tempo o aluno pode considerar-se formado e em que você se baseou pra montar esse processo.

Viriato -
Vou começar tudo do final pro começo. Uma, eu não me baseei em nada, baseei na escola Goldsmith, mas esse processo de orientação eu não tive. Então eu acho assim, não se forma. Eu não formo ninguém. Você enxerga uma hora que você quer parar, você pára, você quer continuar, continua. Tem gente que pára e volta, tem gente que está comigo há 10 anos, tem de tudo. Então não dá pra você fazer isso. Eu não tenho uma receita. Eu não tenho uma fórmula, ou seja, você vai atrás, você vai discutir, você vai querer fazer. Há uma coisa que eu faço assim, no início quando você entra no ateliê, que eu não conheço ainda tua obra, se você quer que eu direcione você de uma maneira minha, o que é que eu vou fazer? Eu vou te passar determinado "x" número de coisas, na qual eu vou descobrir através desse procedimento que eu faço. Como é que você pega no pincel, o que que você gosta, qual suas imagens, que é uma coisa rápida, ou seja, eu faço uma coisa de pegar catálogo, você pega vários catálogos, pega várias imagens põe, ou seja, são 3 artistas que vai transformar num quarto. Então, pra ver o que? As imagens que você gosta, que não gosta, que se põe, a cor, tudo isso, então eu vou começar a descobria a ler você, quem é você, pra poder te direcionar. Então eu sei a maneira já do primeiro contato, dos primeiros trabalhos, eu já sei mais ou menos quem é você. Mais ou menos um estudo psicológico, e é assim que funciona, mas depois..., tem gente que não faz nada disso, já chega e fala "quero fazer isso". Vamos embora, vamos trabalhar isso .

Talita -
E tem um processo de aulas que você não dá para os primeiros alunos, por exemplo do primeiro ano? E você dá...

Viriato -
Já tem alunos que já entram direto, já trabalhando, já tem uma produção, já tudo.

Talita
- Mas tem alguma coisa que você só dá para os veteranos, assim,...

Viriato -
Não, não tem regra, não tem regra.

Talita -
Te perguntar, existe fórmula pra se entrar em um salão de arte?

Viriato -
Não, não tem. Tem uma, o trabalho tem que ser bom. A mesma coisa, quem está julgando tem que gostar, se não gostou, paciência, mas ele tem que estar bom.

Talita -
Agora eu queria que você virasse pra câmera e falasse o que você quiser, o que você acha necessário falar pra quem está te assistindo. Que você se defendesse, se denunciasse. Faz propaganda do ateliê, faz o que você quiser.

Viriato -
Ah, propaganda do ateliê, meu ateliê pode ir lá quem quiser. Eu só acho que eu faço um trabalho que eu gosto, com muito respeito. E só gostaria que as pessoas pudessem respeitar. Eu acho que é fácil falar quando você não conhece, então acho que antes de qualquer pessoa falar alguma coisa, primeiro conhecer, conhecer o trabalho, o procedimento, a seriedade que a gente tem e dentro da minha carreira defendo isso. Mas não tenho do que me queixar, de nada não, não me queixo não. Prefiro fazer do que ficar queixando, porque se você espera cair do céu não vai cair, não sou filhinho de papai, não sou nada, tive que ralar e lutar pra chegar onde eu estou, então agora, eu quero respeito em cima disso. Então, estou ai pro que der e vier. E quem quiser aparecer no atelier, é só ir.

Entrevista realizada por Talita Esquivel com Edilson Viriato
Em 17 de Setembro de 2003

(Para conhecer o currículo de Edilson Viriato, clique aqui)

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