Lendo Arte
O lugar e a obra (Luiz Rodolfo Annes)
Paulo R. O. Reis
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O lugar e a obra (Luiz Rodolfo Annes).

Como construir um lugar para a obra?
Buscar referências artísticas e explorar o território da arte com seus instrumentos. Circunscrever um campo que conecta a obra a seu tempo, ao ligá-la à história (sincronias e diacronias), estabelecendo sua legibilidade. Identificar diálogos formais/conceituais. Temos uma indicação de referências ao universo corrompido no desenho cru de Mike Kelley e Raymond Pettibon, da viagem entre memórias e sua reconstrução na poética de Louise Bourgeois, da narrativa fundada em situações cotidianas absurdas e densamente eróticas dos quadrinhos de Robert Crumb e da disciplina de um mundo que desmorona em Fábio Noronha.

Como construir o lugar da obra?
Vasculhar indicações literárias, dadas pelo artista em seus escritos, títulos de trabalhos e séries. A tentativa representa uma vontade de encontrar, não fontes, mas vasos comunicantes nos quais se re-signifiquem obras e textos. As pistas mais evidentes vem-nos de referências, entre outras, a Clarice Lispector, Rilke, Artaud, Bataille, Hölderlin, Mallarmé, Adélia Prado ou Caio Fernando Abreu. Mas preservando sempre a consciência de que estes lugares da escritura não tem, eles mesmos, uma cartografia muito precisa e, assim, assemelham-se a certos espaços - a Mongólia de Bernardo Carvalho, a Índia de Antonio Tabucchi ou a Londres de João Gilberto Noll, por exemplo - nos quais mais se percorre, mais se está perdido e se desconcerta. É na estranheza, em verdade, que se justapõem desenhos, gravuras, animações e textos.

Como construir o lugar na obra?
Habitar (as obras) em seus interstícios. Seguir as pistas de suas manobras gráficas - linhas e tracejados. Procurar entender a ambiência do desenho (projeto, desígnio, esboço e quase-escrita) e sua espessura (diário auto-biográfico e/ou ficcional, desvio, marca e coreografia de imagens). Percorremos, a partir daí, seus ocos, pegadas, novas dimensões, nervuras, tendões estendidos ou linhas duras e flácidas. Compreendemos a fatura e artesania dispersa da aquarela, a impregnação da gravura, o grafite levíssimo a dissimular sua potência, as linhas vermelhas ansiosas e tremidas, a esferográfica comum, a massa borrada do guache ou a indecisão do nanquim.

Como construir um lugar dentro da obra?
Flagar como cúmplice, não como juiz, seus delitos, suas impressões, excessos, sonhos recorrentes, pulsões, limites quase rompidos, o que não está reprimido e o que se esconde furtivamente. Percebemos, entre o que mais nos perturba, as encenações do corpo e sua condição extrema de carne e humores, a inexorabilidade da morte (a condição frágil do desenho e a condição frágil da vida), a infância desmontada entre ideais de pureza e outros mitos, a insônia contínua, a ameaça/salvação pelo outro, a vigília inútil e o sexo vibrante, obliterado e perverso. Entendemos que o conhecimento de si funda-se, também, na vertigem.

Como construir o lugar da/na obra?
Compreender que uma trajetória artística é formada por discussões de cada momento, entre perseguições a assuntos urgentes e a pesquisas de base. Desenhar e marcar é também nomear (nomear é traçar limites) e, assim, distingue-se países e territórios por entre a disciplina contínua do desenho. As séries de obras - "Apóstrofe a carne", "Agora as crianças lêem poesia, fazem sexo e fumam ópio" , "Deveríamos ser limpos", "Os dragões não conhecem o paraíso", "O eu é um outro", "O mofo amadurecido", "Os escoteiros menstruam", "Tédio", "Perceval comeu ovos fritos", "O vento nos levará", "Os insetos são terríveis", "Insônia", "O caderno", "Ópio e memória", "O jardim", "Duas bocas e um dedo laranja", "Jesus dá leite", "Do outro lado", "Os cachorros perdoam", Catequese", "Dr. X", "Sem enfeite ou para agitar a orelha enrijecida" , "Apesar das proibições de sua mãe", "Os cântaros de Deus", "Meu dedo no teu olho", "Nossos crimes", "O homem permanecido", "Mergulho", "Humores de batata" e "The last french fried potato" - desenvolvem-se, muitas vezes, simultaneamente mas acionam diferentemente suas paisagens.

Como construir certos lugares?
A poética da obra é permeada por um vocabulário gráfico e seu esclarecimento dá-se na busca destes fragmentos. O desafio é o de organizar o entendimento tendo em mãos um dicionário para sempre desconexo. Alguns dos fragmentos são: abraço, amontoado, bichos, boca, cabeça, carinho, caveira, confronto de duas figuras, corpo, corpo deitado, corpo na terra, corpo saindo de outro corpo, cruz, cubículo, dedo, dedo apontado, desaparecimento, disputa, dor, emaranhados, fantasmas, fenda, flor, ganchos, garra, gota, homem, homem deitado, lágrima, montanha, mulher, nudez, olhares ameaçadores, olhares esquivos, ondas, ovo, paredes, pêlos, posição fetal, seios, ser humano/vegetal, sexo feminino, sexo masculino, sexualidade, solidão, sono, raízes, riso, teias de fios, vegetação rasteira e violência.

Qual é mesmo esse lugar?
Lá, onde uma certa topografia do desenho propõe asperezas e fronteiras, descobre-se porosidades e aderências. É o momento no qual reconhece-se (intuímos) nos relevos dos desenhos alguns acidentes da realidade tão próxima. Fica-se enredado nas linhas dos pequenos dramas de vidas infames e confunde-se o espaço da obra ao do espectador. Decidir enfrentar uma obra (a obra de Luiz Rodolfo Annes, neste caso), pressupõe a invenção e recriação de sentidos onde tudo - o controle do imaginário, a inércia da percepção, o abandono da vontade de mudar a si e ao redor - leva a aceitar passivamente o que já se conhece e o que, preguiçosamente, está-se acostumado. As estratégias para se construir um lugar para a obra assemelham-se muito àquelas usadas para construir os lugares (nossos lugares) no mundo.

Paulo R. O. Reis
set/2004

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