André Malinski (Anilina)
desAparecidas


Texto para o "JORNAL DO ESTADO" de Curitiba para 15/01/2007 e 22/01/2007

Nilza Procopiak

ARTE CONTEMPORÂNEA

Duchamp, Dadaísmo e Anilina

Um dos pilares da arte do século 20 que ainda sustenta uma grande parte da produção artística contemporânea - o deslocamento - tal como hoje o conhecemos, surgiu com Marcel Duchamp. E André Malinski, o Anilina, é um dos artistas paranaenses que mais explora o deslocamento em suas obras.

Antes, não se deve esquecer que o movimento precursor que possibilitou o surgimento de Duchamp foi o Dadaísmo e que Marcel era, em essência e em procedimentos, um dadaísta, embora o termo não lhe seja muito empregado em função de seu envolvimento com a arte conceitual. Entretanto, sempre será uma incógnita supor como teria sido Duchamp sem a raiz dadaísta.

Citando Karin Thomas: "Como uma total rebelião contra as formas culturais do desgastado convencionalismo político, social e artístico, surgiu em Zurique, na Suíça, em 8 de fevereiro de 1916, na tribuna dos imigrantes do Cabaret Voltaire, um primeiro movimento Dadá que abrangia todos os gêneros artísticos e que em pouco tempo teve repercussão internacional. O nome Dadá, aplicado a esta corrente artística destrutivo-satírica, apareceu mais ou menos casualmente quando dois artistas do grupo, Richard Huelsenbeck e Hugo Ball, buscando um nome para seu teatro naquela cidade, abriram ao acaso um dicionário alemão-francês e tropeçaram com esta palavra." Diccionario del Arte Actual. Editorial Labor S.A. Barcelona.1982.

A propósito, Dadá, em francês, quer dizer "cavalo", na linguagem infantil, e "idéia fixa" no sentido figurado, termos que não estão em desacordo com este movimento artístico. E, explicando o "mais ou menos casualmente" citado acima, Norval Baitello - o maior estudioso brasileiro do Dadaísmo - prova, ao contrário do que muita gente pensa, que uma linha lógica de significados pode ser traçada nas obras Dadá através de análise de semiótica da cultura.

Continua Karin: "A contradição entre a práxis da vida e o mundo idealizado da arte tradicional se tornou insuportável para os representantes Dadá, marcados pela emigração e pelo protesto contra a Primeira Guerra Mundial. Por isso derrubaram a torre de marfim de uma arte harmonicamente do belo e proclamaram em seu lugar a anti-arte do protesto, do choque, do escândalo, com ajuda dos meios de expressão ironico-satíricos."

Voltando ao francês Duchamp: "Primeiro foi sua pintura Cubo-Futurista intitulada 'Nú descendo a escada', exibida no Armory Show, de 1913, em New York, que puxou o tapete sob os pés do mundo da arte. Logo depois, ele duplicou o choque expondo os ready-mades, objetos triviais do cotidiano que expressavam sua filosofia niilista de anti-arte: uma 'Roda de Bicicleta' montada num banquinho de madeira, ainda em 1913; um 'Porta-garrafas', em 1914; culminando com o urinol exposto em 1917 sob o título 'Fonte'." Do livro 20th Century Art - Museum Ludwig Cologne. Taschen, 1996.
"Foi principalmente Duchamp, em sua exposição de 1919, na Grand Central Gallery, New York, quem ensaiou com seus ready-mades novos modos de produção artística ao proclamar como obra de arte, com o fantasioso título de 'Fonte' um produto manufaturado em série como é um vaso sanitário. Neste ponto, a arte contemporânea assume uma nova definição e, baseando seu valor na referência à realidade, determina sua função. O testemunho de referência à realidade vivencial chega a ser mais importante que o produto material acabado da produção artística. Ele dizia de seu ready-made: 'É um objeto que, pela simples escolha do artista, se eleva à dignidade de objeto artístico'." , segundo Karin no livro citado.

Entretanto, porque há controvérsia, cito Dawn Ades, em O Dadá e o Surrealismo, (Editorial Labor do Brasil. 1976) com grifo meu: "Duchamp só denominou esses objetos ready-made na América, onde começou a destacar outros objetos manufaturados. O próprio Duchamp quis deixar bem claro que não se tratava de transformá-los em objetos de arte". Aqui entra uma questão de hábito em relação aos objetos cotidianos, alheia ao nosso tema e até porque, como dadaísta, Duchamp tinha o direito e o dever de se contradizer. Sem falar que controvérsias podem ser explicadas pelo transcorrer do tempo, pela aceitação do artista perante crítica e público e, principalmente, pelo amadurecimento pessoal de Duchamp que fez com que ele fosse modificando seus próprios enunciados ao longo de sua vida. Marcel morreu em 1968, em Paris, sendo inegável, já naquela época, o patamar do conceitual como arte e o gatilho que viria a acionar a questão do deslocamento na arte.

Há um deslocamento de sentido que sempre gosto de citar, inclusive porque é uma obra de Picasso e como tal não deixa de ser um exemplo perfeito do que acontece quando formas conhecidas são arranjadas em nova disposição remetendo a outros significados. Este é o caso da "Cabeça de Touro", na qual ele deslocou partes de uma bicicleta - numa analogia, a princípio, oculta - para que fossem reconhecidas no contexto de outra montagem, onde desempenham perfeitamente o papel da cabeça do animal, sendo o guidom os chifres e o selim seu crânio.

Interessante notar que aqui as formas, uma vez deslocadas são imediatamente relacionadas ao touro, sendo necessário um certo esforço para percebê-las como peças componentes de uma velha bicicleta. Este é realmente o jogo de Picasso, quase na forma de um chiste, de uma charada que o espectador resolve, até porque a atração que o trabalho suscita reside na descoberta, por parte de quem olha, da "sacada" inteligente do artista que se repete na do observador. Este é justamente o ponto em que a obra de arte se complementa, interagindo com olhar e mente do fruidor.

Entretanto, o que vemos nos trabalhos de André Malinski é diferente e muito mais sutil e, paradoxalmente, complexo.
Vinda numa seqüência de obras motivadas pelo estudo da sacralidade religiosa, a obra de Anilina é citada, segundo proposição do crítico de arte João Henrique do Amaral: "Se a memória remete aos altares familiares, aos piedosos anjos e santos, rituais, catecismos, rezas e esperança, o acabamento esmerado, o rebordado refinado, as cores 'fashion', a manufatura cuidada de atelier de designer nos trazem para uma produção cosmopolita, chic, mas não só isso. Há o carnaval, o apoteótico, o popular em toda sua carga de terra, de raiz de costumes imemoriais . Há a 'ausência'. Há a incômoda sensação do supérfluo, do brilho, do oco. Há a sensação de atualidade, da estapafúrdia rotina de jornais, valorização do externo, do oco 'desaparecida' santa popular, para ser uma expressão de cultura pop."

O próprio enunciado acima já fornece pistas para que se possa ligar Malinski diretamente ao Dadaísmo, movimento artístico destrutivo-satírico que surgiu em 1916, na Suíça. Explico que o caráter destrutivo relacionado à arte Dadá nunca teve ligação com atos violentos contra pessoas ou instituições. O que ocorria, principalmente depois que o movimento se estabeleceu na Alemanha, eram atos artísticos, como vezes em que o povo em geral era convocado com urgência para se reunir numa praça ou em frente a um Banco do Governo. Numa época de tensão social, as autoridades ficavam apreensivas e convocavam a polícia com medo das manifestações mas quem comparecesse não veria absolutamente nada, a não ser um ou outro artista do grupo vagando por ali, observando quem tinha vindo, estes sim, completamente equivocados ou enganados.

O caráter irônico do choque era alcançado também através da subversão dos meios tradicionais de expressão, tais como a imprensa, o livro, o teatro. Um exemplo famoso seriam as poesias que Hugo Ball apresentava no "Cabaret Voltaire", local de encontro do grupo. Ao retirar o significado das palavras reduzindo-as a meras vocalizações, o artista fez com que, pela primeira vez, desde a pré-história da humanidade, se destacasse a importância do som gutural, completamente desconhecido - ou esquecido - pelos séculos de civilização e significação da linguagem. Não é preciso dizer que o teatro de vanguarda imediatamente retomou este uso do som primal.

O deslocamento que Anilina executa passa por todos estes requintes de expressão, desde equivalentes aos utilizados pelos dadaístas, somando-se à montagem do touro de Picasso e aproximações à obra de Duchamp, até um deslocamento que lhe é peculiar, o da imagem que ilustra esta coluna. São versões da santa que se resumem até onde é possível a redução. O estranhamento causado pelo recorte é uma configuração que retira a sacralidade da obra ao mesmo tempo em que a repõe pelo número de vezes com que a imagem é repetida. Por outro lado, esta imagem - em relação ao observador - se afasta e se aproxima ao mesmo tempo em que é diminuída e/ou aumentada. A criatividade infinda do artista, que exigiria muitas palavras mais - só lembrando aqui o paralelo entre a repetição da imagem e das rezas dirigidas à santa

ARQUIVO ARTE CONTEMPORÂNEA 320 15 jan Duchamp
DIZERES DA FOTO: "Miguel Jorge" obra de André Malinski
CRÉDITO DA IMAGEM: DIVULGAÇÃO/UFPR - MUVI

 

 

Fonte: http://www.muvi.advant.com.br
Coordenação: Fábio Channe