Beatriz Pimenta
Cabeça , Tronco e Membros

2001
Cabeça, Tronco e Membros

Quatro caixas transparentes e vazias com imagens de partes do meu corpo. Essas caixas foram montadas na instalação Cabeça, corpo e Membros. Na galeria do galpão da PPGAV - EBA foi construído para elas um ambiente especial. Como era um lugar de freqüência limitada, executei o meu projeto na íntegra, cobri de água todo o piso da galeria e propus a todos que quisessem entrar que tirassem os sapatos.

Sugerida pelas bolas de basquete mergulhadas na água de Jeff Koons e por Damien Hirst com seus animais conservados em formol dentro de tanques, construí um recipiente para as minhas imagens. As caixas aparentemente vazias têm um conteúdo cheio de imagens formadas pelos fotolitos e reflexos que se fundem sobre suas superfícies. Por sua forma e organização em módulos no espaço, uma depois da outra: cabeça, tronco e membros; as caixas também podem ser consideradas uma citação à arte minimalista. Mas diferente da opacidade do objeto minimalista, o significado delas está no seu interior ser aparente e vazio, mas um vazio pronto para incorporar as características do ambiente em que estão.

Quando coloquei a água sobre o chão com as caixas penduradas sobre ele, imaginei estar transportando um suposto conteúdo líquido de dentro delas para o espaço externo. A sala se tornou um outro recipiente que absorvia as imagens e os movimentos dos corpos dentro dela. A água funcionava como um revelador da presença dos objetos, um segundo plano visual que mostrava do que era composto (um chão de cimento), ao mesmo tempo em que refletia sobre si seu plano oposto (o teto).

O recurso dos reflexos traz objetos que estão fora do campo visual para dentro. Eles multiplicam os olhares, quebram a planura da visão e proporcionam uma espécie de visão espacializada. Nas fotos, essa visão simultânea do espaço fica estabelecida em um mesmo plano (princípio cubista), mas considerando o tempo de deslocamento do espectador teremos esse espaço multifacetado em movimento, aumentado sensitivamente em percepções visuais. O deslocamento no espaço é que proporciona a fruição da tridimensionalidade, para percebermos o espaço é preciso tempo para interagir com ele, por isso busquei construir um lugar onde o corpo reagisse ao espaço e o espaço reagisse à presença do corpo.

A água, o ar e o chão da sala, podem ser considerados os espaços que contém os objetos. O reflexo é a aura do objeto, é sua imagem irradiada no espaço e projetada em outros objetos a seu redor, ao mesmo tempo em que recebe sobre si o reflexo desses outros objetos. O reflexo é uma imagem virtual, o objeto não está ali, mas sua presença é uma referência da sua proximidade, uma delimitação da sua área de influência.

Se a imagem observada pelo espectador é um reflexo rebatido superposto; se o acrílico da caixa ou a água como planos refletores, refletem o espectador que as observa ou que nelas se observa, é, portanto, quase sempre ele, o espectador, que se vê no reflexo que observa. Pode se ver no teto, no chão, na parede, na caixa, e em qualquer plano que se superponha à sua imagem refletida. Esse jogo resgata a lenda de Narciso, que acredita ver um outro, quando é sempre a imagem dele mesmo que está admirando. Uma fundamental particularidade ocorre aqui: as superfícies refletoras referidas (a água e as caixas) são ambíguas, ao mesmo tempo em que mostram ao fundo uma imagem (o chão ou as fotos), refletem na superfície o espectador e seu plano de fundo. O narcisismo ocorre pela possibilidade do espectador ver a sua imagem situada em qualquer lugar da sala. Sobre o olhar do espectador paira uma dúvida, para onde é que ele está olhando, para sua própria imagem, para o reflexo de algum objeto ou para a imagem que está por trás da superfície?

Para mim, as caixas foram uma espécie de conclusão da minha pesquisa visual desde O quarto. Com elas, percebi claramente a arte como pensamento, na instalação construo várias relações do corpo com o espaço. Segundo Bergson, "o corpo é uma imagem favorecida, percebida em profundidade e superfície, sede de afecção e fonte de ação". As imagens transparentes e refletoras das caixas colocam o corpo como superfície, pois "a superfície é o limite comum do exterior com o interior, é a única porção da extensão que é percebida e sentida ao mesmo tempo1".

Na década de 30, quando Bergson escreveu Matéria e Memória, o cinema começava a dar seus primeiros passos decisivos e apesar do filosofo o ter considerado como ilusão, formalmente nenhuma imagem se adaptou tão bem a sua teoria. "A matéria, para nós, é um conjunto de imagens", em sua análise parte do pressuposto que a consciên-cia está no mesmo plano que os objetos.

Quando fiz as caixas não tinha lido Bergson, mas foi na sua teoria que encontrei afinidades literais com a minha prática. No meu ver, seu pensamento trabalha com certa antecipação a crescente necessidade de virtualizarmos o real em um mundo que tende a degradar seu ambiente natural. Procurando retratar o mundo em que vivo, incluo o meu corpo e o dos espectadores em um ambiente reflexível onde está implícito o advento da vitrine, da fotografia, do cinema, da TV e do computador.

Notas:
1.Bergson, Henri, Matéria e Memória. trad. Paulo Neves da Silva. Ed. Martins Fontes. SP. 1990.

Fonte: http://www.muvi.advant.com.br
Coordenação: Fábio Channe