Caetano Dias
IX Salão MAM - BA
Museu de Arte Moderna da bahia. 07 de dezembro de 2001 a 24 de fevereiro de 2002
Estratégias para perda de sentidos


As questões que tangenciam o tema do corpo são recorrentes na obra de Caetano Dias. Desde o inicio dos anos 90 sua produção trazia o interesse pela possibilidade de ressignificar o corpo. Naquele momento, o artista se apropriava de gravuras confeccionadas pelos artistas viajantes do período colonial brasileiro para retrabalhar o olhar exótico dos mesmos .De lá praça, o que mudou em sua obra?

Digamos que ele tenha mantido certos procedimentos e que tenha redimensionado outros tantos. De um lado, manteve o processo de construção sempre presente em seu universo. De outro lado manteve o processo de apropriação em seu trabalho .

Só que é como se tivesse mudado de planeta , porque no início dos anos noventa essa operação eram feitas no contexto do mundo real, analógico e agora vem sendo realizado no contexto do mundo globalizado, virtual , digital.

Hoje trabalha com vídeo,com obras tridimensionais e com fotografia. Embora ele não seja um fotografo no estrito senso - não é ele que "clica"as imagens - ele é fotografo no sentido de"ver"imagens ou antevê - lãs, para em seguida, escolhe-las e apropriar-se delas criar suas metáforas. Dias utiliza"sites"de busca na rede informática para encontrar imagens de repertorio erótico e reprocessá-las. Diluindo suas formas e desfocando -as, o artista as devolve à condição de anonimato: ao perder o foco, as imagens perdem a origem;olhos, nariz , boca ,fonte - elementos de configuração da identidade - são retirados para alterar o significado imagético.

Numa segunda operação, o artista renomeia essas representações criando as séries "santos populares""e "sobre a virgem ". O resgate e a aproximação com a tradição popular não se dá em relação à forma, ao contrario, suas representações não tem aproximação formal com o imaginário do artesanato brasileiro. O que Dias resgata é o sentido"sacro "da tradição popular.
Duas significações transparecem nessa estratégias para perda de sentido: os conteúdos profanos dos" sites" se tornam sacros na reapropriação; forma e pintura tradicionais da cultura popular - e recebem novo tratamento a partir da diluição e do desfocamento configurando uma nova imagem. Formalmente, caminha no sentido oposto da forma na cultura popular, ao constituir pictorialidades no uso da fotografia da maneira mais contemporânea, bem ao modo dos nossos dias. Essas ações de alterações do conteúdo sígnico, simbólico e formal revelam o artista inquieto que deseja modificar o sentido das coisas, ainda que a tradição seja importante para ele. Caetano é baiano e por meio da tradição estabelece conexões mais profundas com a sua cultura, mas, de outro lado, ele parece querer ver a vida ressignificada e apropriada aos dias de hoje.

São ressemantizações que abrangem do espiritual ao estético, a despeito da tecnologizaão da cultura e da virtualização do uso do corpo no mundo globalizado.
Na série "Sobre a Virgem, estabelece uma tentativa de desgaste ou perda de matéria nessa apropriações, no ato de perfurar as imagens. Aqui o corpo é reprojetado enquanto objeto; sua representação física é tentativa de criar lugar para subjetividade.

Ao criar um sistema simbólico, o artista configura uma ação inconoclasta que eventualmente pode beirar a abjeção.E porquê ? Os próprios títulos das obras caracterizam o seu constante processo de construção e desconstrução.

Antagonismo para desestabilizar um sistema dado a priori;construção no plano físico para desconstruir o plano simbólico. Ao criar esse corpos metafísicos, Dias conecta-se com uma certa linguagem, em que a mente passa a ser a ideologia do corpo. Este, por sua vez inventa teorias para justificar, purificar, redimir.

E - ressignificando - seduzir, liberar e encantar.

Indaguei o artista sobre o campo da abjeção em sua obra, se o ato de entrar em outros mundos (internet)e "sacar"ou saquear imagens não o aproxima de uma ação predatória... mas o caráter voyeurista desse ato se justifica no contexto vivido pelo homem urbano. Contrariamente ao tipo de abjeção encontrada no universo Duchampiano, que se apropriava e ressignificava para desestabilizar os estatutos vigentes da arte e do mercado, o abjeto em Caetano vai se dar no plano do cidadão do 3° mundo globalizado . O campo de ação do artista é o universo do cotidiano, como contraponto ao da "rede "ou melhor: no seu caso, o da tradição e dia-a-dia baianos, no contexto do mundo global. Por meio de atitude voyeurista, Dias indaga sobre a possibilidade de simulação do prazer absoluto a partir da erogeneização da imagem na internet. E retoma a contradição da idéia de culpa inserida na cultura cristã, a partir da proibição da idolatria das imagens, acirrando o conflito entre proibição e desejo via apropriação das mesmas, uma vez que "cristo é feito a imagem e semelhança de Deus"... revela o artista.

Essas representações de Caetano que tangenciam o território de uma erótica virtual podem evocar um certo narcisismo, aproximando-o do repertorio da abjeção pela emergência de uma cultura onde o superego torna-se mais cruel, onde ficção, desejo e realidade se interpenetram na ausência total de alteridade.

Mas não nos enganemos. Esse é o índice de crítica no repertorio de Caetano Dias, que se inscreveu no circuito da arte contemporânea e resiste, a despeito do modelo da gestão atual da sociedade globalizada.

Vitória Daniela Bousso
Paço das artes,São Paulo, 15 de julho de 2002.

Fonte: http://www.muvi.advant.com.br
Coordenação: Fábio Channe