Didonet Thomaz
Espólio de Sara Stenzel
Sala Índice - Centro Cultural Solar do Barão
Fundação Cultural de Curitiba (FCC)- PR
20 dez. 2001 - 10 mar. 2002

DIDONET THOMAZ (1)
ESPÓLIO DE SARA STENZEL - TEATRO MONÓTONO

memórias provisórias

Muitas vezes me acontece guardar um objeto mesmo sem saber o que fazer com ele. Nem sempre entendo o impulso que me leva a selecioná-lo, dentre uma infinidade de outros, e conservá-lo ao meu alcance, mas sinto uma vaga certeza de vir a precisar dele mais adiante. O que cria essa necessidade? É provável que ao elegê-lo empreste a esse objeto o poder de ativar em minha mente algo capaz de me fazer ver o que não estou vendo, fazer outra vez o que não estou fazendo, pensar e sentir outra vez o que foi sentido e pensado antes do momento presente e em situação diversa da que me encontro agora. Essa "vivência" é diferente da original e possibilita estender o olhar desde outro ponto. Tal deslocamento ao passado proporciona um momento presente genuíno, tão novinho e real como o que estou vivendo agora, para fazer dele o que quiser.

O fenômeno memória, de importância fundamental para o ser humano, é tomado como elemento principal na obra de DIDONET THOMAZ. É transformado em instrumento ativo numa espécie de jogo de conexões múltiplas. A obra de DIDONET estende uma rede de possibilidades de relacionar memórias provenientes de universos distintos, como as produzidas pelos objetos do Espólio de Sara Stenzel,2 as colecionadas pela própria artista, as inevitávelmente evocadas pela Sala Indice do Museu da Gravura Cidade de Curitiba -- onde acontece a exposição, situado no prédio histórico Solar do Barão -- e as que vão sendo elaboradas pelo público fruidor.

A estrutura dessa mostra equilibra-se entre um passado onipresente e um presente contínuo, movediço e cambiante, flagrantemente condicionado às flutuações de interpretações pessoais. No entanto, o formato caixa/vitrine e o título da série de obras Livro Informal Espetáculo, para a ocasião, segundo a artista, sugerem um método quase científico de exibição. Nela se encontram reunidos objetos pinçados do universo pessoal da artista e desenhos anteriores, exibidos junto a mata-borrões usados pela família Stenzel. Ao mesmo tempo, a disposição dos elementos e o caráter provisório dessa "mostragem" aponta para o universo em que esse objeto "científico" transita: o da arte. Os títulos indicam o descompromisso da informalidade e a finitude do espetáculo -- essas caixas já foram e podem voltar a ser montadas em outras propostas, sem qualquer vínculo com os Livros desta exposição. Alinhados na horizontal e suspensos junto à parede direita da sala os Livros compõem-se de uma caixa de madeira e vidro, parcialmente envolta por uma peça de couro vestuário vermelho escuro. A associação dos elementos contidos em cada Livro foi regida por uma ação dominante -- fechar para o Livro Informal Espetáculo I, superpor para o II, encostar para o III, suspender para o IV, amassar para o V e empilhar para o VI. Uma etiqueta do mesmo couro, em formato semelhante ao das malas de viagem,contem a legenda correspondente e acompanha cada Livro.

No lado oposto da sala está uma mesa/armário de madeira com tampo de vidro -- prateleiras vazias para acomodar os Livros ao final da exposição -- e uma pele de coelho fixada à parte interna da porta, sem esquecer a etiqueta.

Sobre a mesa, uma pequena e antiga vitrine de madeira (propriedade da artista) mostra em seu interior dois chapéus femininos feitos por Sara, um branco (do acervo de Gerda Wilhelm) e um preto (de Lydia Stenzel), apoiados nos pratos de uma balança diminuta. Deitadas na transparência do vidro, duas caixas/vitrine iguais às dos Livros aninham em seu interior -- revestido pelo mesmo couro vermelho escuro -- dois livros abertos, cujas páginas expõem gravuras em preto e branco. O livro DIE NÄCHTE (As Noites), (2) de Alfred de Musset, mostra, em águas-fortes originais, antigas imagens noturnas das estações do ano -- uma alusão da artista à ciclicidade do tempo. Na outra, o livro DER TOTENTANZ (A Dança Macabra, As Imagens da Morte e O Alfabeto da Morte)(3) é composto por provas das xilografias desenhadas por Hans Holbein e remetem à morte.

Princípios básicos de gravura envolvem noções de incisão, matriz, marca, impressão, inversão, múltiplo, além de cheio e vazio, luz e escuridão e uma infinidade de opostos -- o resultado final do procedimento pode ser um corpo (o papel) que se apresenta marcado (impresso) pelo contato com outro (a matriz), de natureza diversa (madeira, metal, pedra ou qualquer material), do qual guarda uma espécie de memória ( o que estava gravado na matriz e foi impresso com tinta ou relevo). São noções encontráveis em muitas situações da vida passíveis de interpretação de acordo com o contexto. DIDONET estende ao público essa matriz de interpretação ao longo da exposição. Todos os elementos que compõem essa mesa apontam nessa direção e para o passado. Foi a própria Sara quem confeccionou os chapéus e também as incisões exatas que preservaram a pele de coelho -- atividade que repetia regularmente com o intuito de comercializar as peles e a carne dos animais que criava especialmente com essa intenção. Não há dúvida de que as incisões necessárias para gravar as matrizes que deram origem às gravuras dos livros antigos são de natureza diversa, embora tenham conduzido a noções de cheio e vazio ao produzir marcas no corpo do animal e no do material da matriz. O que as liga é o caráter definitivo dessas ações -- uma clara alusão ao passado.

Esse caráter definitivo, no entanto, traz em seu bojo uma interrogação incômoda -- se já aconteceu, como saber o que foi? -- indicando permeabilidade a interpretações e tornando essa noção de passado, outra vez incerta, movediça, sujeita a mutações.

Se a memória é interpretativa e oferece novíssimos e sempre frescos momentos reais, o passado, como algo de oculto, encontra-se no presente. Em alguns dos Livros há elementos que não estão visíveis; a decisão da artista de manter esses conjuntos de memórias pessoais junto a memórias alheias, pensadas como obras apenas pelo tempo que durar a exposição, estabelece a possibilidade de produzir novos presentes usando como matéria prima fragmentos de numerosos passados. Fica evidente que a artista reconhece diferenças entre os tipos de memórias e multiplica as características de cada tempo -- trabalha oferecendo ao público, além da parte fixa da exposição, um ritual cíclico que se renova a cada semana, abrangendo todo o tempo da mostra, invariavelmente, quintas-feiras, às dezessete horas, DIDONET abre as caixas e vira uma página de cada livro de gravura. A artista estabelece então, mais uma possibilidade do tempo: o que se pode controlar e dominar, exibir e ocultar, por meio de pensamento e ação.

DIDONET THOMAZ preparou para o público uma trama riquíssima de elementos ligados ao tempo, armados como peças de um jogo que vai acontecendo à medida que se decifram suas peças, em sua maioria não palpáveis ao tato, mas tão densas quanto um objeto material qualquer. (4)

Curitiba, fevereiro de 2002.

ANA GONZÁLEZ
Fotografia e texto. Artista plástica e responsável pela idealização e organização do programa INCISÃO, MARCA E MÚLTIPLO.(5)


1 Didonet Thomaz. Artista plástica, pesquisadora no Acervo Stenzel, 1986-2005.

2 DIE NÄCHTE (As Noites) de Alfred de Musset (1810-1857) e águas-fortes originais de Christian L. Martin, Editora Artur Wolf, Viena, 1920.

3 DER TOTENTANZ (A Dança Macabra, As Imagens da Morte e O Alfabeto da Morte) e provas das xilogravuras desenhadas por Hans Holbein (1497-1543), talhadas por Hanns Lützelburger e outros, editadas por Amsler & Ruthardt, Berlin, 1922.

4 Este texto foi publicado pelo jornal Gazeta do Povo, Curitiba, 9 fev. 2002, Caderno G. p. 4. O Projeto Espólio de Sara Stenzel, Teatro Monótono: Livro Informal Espectáculo, I, II, III, IV, V, VI, foi citado no artigo UMA CASA EM DESMANCHO, Teatro Monótono: 1992-2004. In: Arte em pesquisa: especificidades. Maria Beatriz de Medeiros (Org.). Brasília/DF: Editora da Pós-Graduação em Arte da Universidade Federal de Brasília, 2004, v. 2, p. 231-240. XIII Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas-ANPAP, Brasília/DF, nov. 2004. Disponível em <http://www.corpos.org/anpap/2004/textos/clv/didonetthomaz.pdf.>.

5 INCISÃO, MARCA E MÚLTIPLO foi um programa de exposições promovido pelo Museu da Gravura Cidade de Curitiba através de sua Loja, com a intenção de abrir espaço para discutir a relação produção artística&comercialização. O programa privilegiou produções de arte contemporânea que mantenham algum vínculo com conceitos ou procedimentos de gravura, fazendo jus à vocação do Museu ao mesmo tempo que, procurou dar visibilidade à produção brasileira local e nacional. Maria de Lourdes Gomes (12 ago. - 30 set. 2001), Isabel de Castro (4 out. - 11 nov. 2001), Larissa Franco (14 nov. - 16 dez. 2001), Didonet Thomaz (20 dez. 2001 - 10 mar. 2002) e Marga Puntel (7 mar. - 14 abr. 2002) foram as artistas integrantes deste primeiro momento 2001/2002. Centro Cultural Solar do Barão - Sala Índice.

6 Agradecimentos à Ana González, Cassiana Lícia de Lacerda, Célia e Guido Didonet, Elfi Harlezki (in memoriam), Irma Penner, José Carlos Thomaz, Gerda Wilhelm, Marli Kohls, Roberto Alves dos Santos Junior, Rosemarie Seely, Solange Fiori, à família Stenzel, especialmente Norma, Cida e João Nestor e Nestor (in memoriam). Agradecimentos à Adelaide Rudolph pela tradução (do alemão para o português) de DIE NÄCHTE e DER TOTENTAN Z; à Antonia Schwinden pela revisão e ao Helton Tessari Brandão pela editoração.

Fonte: http://www.muvi.advant.com.br
Coordenação: Fábio Channe