Eliana Borges
Cartografia
2006
O corpo como mapa de si mesmo o corpo como casa

Manoel Ricardo de Lima (1)

O que nos solicita de atenção para esticar o olho aos mapas enquanto não estamos procurando nenhum ponto fixo ou de passagem? Desde seus quandos, seus primeiros tempos, os mapas, como desenhos da cartografia dos limes de uma terra, tomam sugerir que as suas linhas de configuração, num sentido o mais aproximado possível de uma representação do real, do mundo objetivo, são talvez ou mesmo uma representação dos sulcos e das vincas de nosso corpo. Um jeito para nos encontrarmos ou, ao menos, para não nos perdermos. E tomando assim o nosso corpo como escala, como meridiano, como substantiva condição de nossa própria cartografia ética e política, para imprimir outra sugestão que pode ser resumida a uma pergunta: como estar no mundo?

E é desta pergunta que uma conversa com a imagem e com a re-configuração dela entre os mapas e o corpo, entre o corpo e os mapas - qual cartografia, qual organismo, qual o sentido, qual o norte ou qual desnorte de nossas essencialidades, de nossos prismas de rasgo e risco em existir -, que a artista visual Eliana Borges parte para desenvolver os objetos de seu último trabalho, a exposição CARTO+GRAFIAs. Numa relação clara entre a dista e a entranha, os materiais utilizados agora neste trabalho de Eliana confirmam, ampliam e problematizam os impasses aos desfazimentos gagos e balbuciados da imago, também como discurso, nas estruturas falidas das sociedades contemporâneas.

É possível assim pensar que partindo desta pergunta aparentemente banal - como estar no mundo? - e tomando a direção do simples gesto de rodopiar sobre si mesmo, sem interrupções, que o nosso corpo se esturra em padecimentos e se estabelece, numa justa, como um corpo-precário. E Eliana Borges, neste trabalho, e em sua pesquisa e trabalhos anteriores, parece nos perguntar como estamos lançados em nossas precariedades, como quedamos a nossa luta mais tenra, a da vida nela mesma; ou ainda, com mais rigor, parece nos perguntar qual a possibilidade de nos sairmos e nos fugirmos de nossa exausta e complexa precariedade corpórea, hoje. Ao mesmo tempo em que indica um como, mas não uma saída, mas um como dissesse ser a arte, ou alguma arte, ainda, um princípio para retomar (atando e desatando) os nós da imago como espaço afetivo, e aí, sim, como lugar da nossa mais profunda, ou inócua, que seja, possibilidade de imaginar.

Neste trabalho de Eliana Borges é possível lembrar também, quase imediatamente, da encantadora arte da cartografia (entre o nome e o desaparecimento dele, entre o espaço e sua representação) que está sugerida por Lewis Carrol em seus livros Alice no País das Maravilhas, Alice Através do Espelho e Sylvie e Bruno. Nestes trabalhos Carrol desfaz todo e qualquer sentido lógico acerca das leis do tempo e, principalmente, do espaço nas demarcações do território. Primeiro, no bosque onde as coisas não têm nome, nem precisam ter. O genial e incerto esboço das coisas sem nome, logo sem lugar. Depois, quando um professor alemão de geografia quer desenvolver um mapa para uma ilha, um mapa que tenha como representação o mesmo ponto a ponto do território mapeado. Um mapa auto-referencial. Mas nisso os lavradores do local percebem as impossibilidades: este mapa terminaria por impedir a entrada de luz sobre a terra e mataria tudo o que é vivo. E assim, eles, lavradores, passam a usar a própria terra como mapa de si mesma.

É esta a questão mais interessante do trabalho de Eliana Borges: usar o corpo como mapa de si mesmo, um corpo que tenta estar para não se morrer num antes. O corpo como casa, como primeiro lugar das intimidades, como primeiro espaço interno, como lugar. O corpo como a primeira cartografia de afetos: a primeira idéia de nossas afecções, o corpo como casa, a primeira das zonas de fronteira, o corpo como primeiro campo problemático. E perder o prumo do onde é casa, onde é corpo, onde é mapa: esta a postura plástica deste trabalho que se desfia no nome, etimologicamente: CARTO+GRAFIAs. O uso de materiais como agulhas usadas pela acupuntura - "na verdade, somos todos agulhas", afirma Eliana -, por exemplo, em tamanho mesmo e tamanho agigantado, fincadas por todo o espaço da exposição sobre mapas de todos os lugares logo de lugar nenhum, perfuram a paisagem do entre alhures e nenhures: a paisagem do futuro: a paisagem do incerto: a paisagem do sem lugar: perfuram e raspam a paisagem das imagens que não nos aderem, que não nos doem: nos fotogramas, nos tecidos, nas linhas, nos mapas. Eliana quer propor interrogar esta imagem que desaparece nela mesma, fazer doer onde desapareceu doer. E mais: num cruzamento dos objetos dentro do espaço ocupado pela exposição, interferindo, intervindo, dar a ver um como trazer equilíbrio e estímulo ao sentido mais denso do trágico: o corpo como mapa de si mesmo.

1 - Poeta. Professor de Literatura Portuguesa, UFSC. Autor de Embrulho (7Letras), Falas Inacabadas - objetos e um poema, com a artista visual Elida Tessler (Tomo Editorial), As Mãos (7Letras) e Entre Percurso e Vanguarda (Annablume).

Fonte: http://www.muvi.advant.com.br
Coordenação: Fábio Channe