Fernando Augusto
Os Últimos Dias de Meu Pai
Coletiva Múltiplas Identidades - Casa Andrade Muricy
03 de junho a 18 de julho de 2004
SOBRE A SÉRIE OS ULTIMOS DIAS DO MEU PAI - FOTOGRAFIA

Olho estas fotografias. Quase não escuto o barulho da sala ao redor. A face do meu pai contrai de dor. Pouca coisa muda de uma fotografia a outra. Numa foto meu pai recebe uma injeção, na seguinte, ao lado, quase a mesma foto, meu pai recebe a mesma injeção... aparece, do seu lado se dá uma espécie de idílio juvenil entre jovens, uma espinha é quebrada no rosto de Túlio, meu sobrinho, por minha irmã. Um cachorro, de nome Mailon, quase despercebido na foto anterior sobe na cama. Meu pai logo estará morto. Uma mão aparece no alto da porta, à direta e espera, um vizinho. Meu pai toma uma injeção aplicada por minha irmã Isabel. Ela também espera, espera melhorar a saúde do meu pai, mas espera ainda o pior: Meu pai logo vai morrer. O pior? Aprendemos a chorar a morte, as vezes sem saber porque. Temo a morte dos meus filhos ( João e Pedro, de 6 e 11 anos), na flor da idade, a do meu pai não.

De repente, gostaria de perguntar a ele, se, neste estado ele teme a morte, se a aceita e como? Explico, porque não temo a morte de meu pai por que não a vejo mais como um inimigo, por que ele já viveu 78 anos, por que ele está muito doente. Não se pode querer viver num corpo tão doente, onde não se sente mais o gosto da comida, o gosto do vento, o gosto da água. Um corpo que não sente mais o barulho da casa ou o carinho das pessoas, que não sente mais nem a revolta, nem o tempo.... Digo isso, mas como será que ele sente todas estas coisas? 78 anos é um bom tempo de vida nesta terra. Talvez tempo suficiente para se viver a experiência humana da vida, que tempos outros virão, ou existirão? A nossa experiência humana só percebe o que se formata enquanto experiência humana.

Terá meu pai vivido bem estes 78 anos? Sentiria ele vontade de ainda viver para fazer alguma coisa? Reparar algo que julgue ter feito errado? Bem Jovem saiu ele do sertão da Bahia e foi para o sul - sul da Bahia que ainda é sertão, por que o sertão, para o sertanejo não termina nunca - viajou quinze dias a cavalo, levando tropa e gado, para finalmente se estabelece como proprietàrio e agricultor. De boiadeiro, vaqueiro, tropeiro se fez fazendeiro, negociante e por fim, aposentado. Ainda jovem casou-se com Abigail, bem mais jovem do que ele e uma das mais belas moças do lugar. Gostava de contar que segurava um boi no laço, quando jovem. E de fato lutou com bois e teve um braço e três costelas quebradas e, também um perna rasgada por um marruaz valente.

Fumava cigarro de palha, ficou bêbado apenas uma vez, passou mal e jurou nunca mais beber. Homem de opinião que eu vi chorar pela primeira vez quando morreu seu burro estimado de nome dourado. Teve apenas seis meses de escola, assim aprendeu a ler, a escrever e a fazer conta. Escreveu-me poucas cartas, mas ainda guardo o desenho de sua caligrafia, rápida e angulosa. Gostava de ler e recitar literatura de cordel - "As aventuras de lampião no céu" , "A peleja do cego Aderaldo", e "As Aventuras de Pedro Malazartes", entre outras. Vez ou outra cantava: " boi tem força no cangote, cavalo no espinhaço mulher na ponta da língua homem no punho e no braço." Com minha mãe D. Biga, teve oito filhos, dois morreram cedo, um jovem com dezenove anos, nós os outros vingamos e estamos por aí. Ele se empenhou para que todos tivessem escola e, em parte, por isso, se dispôs a viver na cidade. Nunca vi desajuste maior, morar na cidade não era sua vocação e, no entanto ele ficou. Aos poucos foi vendendo as terras que tinha e também o gado, tentando sempre acertar os negócios.

O plano Collor foi o grande golpe e seu primeiro infarto. Lá se foi sua última nesga de terra e as últimas cabeças de gado. Ele que um dia fora convidado para ser o delegado da cidade de Medeiros Neto-(BA), mas que recusou com a frase: " sei lidar com gado, não com gente". Teve muitos amigos, desses que a gente faz com vinte, trinta , quarenta anos. Mas lidar com a dor, lidar com a morte, será que ele sabia? Lidar com animais, com a natureza, ensina a lidar com o humano. Certamente ele soube muito eu é que não sei, mesmo assim tornei-me professor de uma disciplina que mais do que nunca me ensina isso: aprender o humano.

Não vejo mais a morte como aquela que vem tirar-me a vida mas como um ente que dela participa, propiciando reflexões e sentido. Não tem sentido viver no sem fim. O para sempre, infinitamente é igual à não existência, ao não viver a experiência humana das coisas e do ser. Se compreendermos as coisas num constante crescendo e vir a ser , a morte, ao invés de vilã é um dos grandes estágios desta evolução. Esta foi a lição última que meu pai em sua morte me deu e me propiciou viver. Noutra seqüência de fotos ele está morto. Seu caixão coberto de flores amarelas e vermelhas está no meio da sala. Devagar, com gestos quase calculados, as pessoas vêem , olham e vão.

Uma mulher de braços cruzados espera na porta. Atrás dela um homem que também espera. Quase ninguém fala, todos respiram um silencio de morte. Meu pai morto está voltado para dois retratos na parede. Um è dele próprio, o outro è da mãe dele, minha Vó Floriana, quem eu não conheci. Ele falava muito dela. Na seqüência, logo surge a figura da minha irmã Isabel, que outrora aplicava a injeção, dobrada sobre o corpo de meu pai chorando. Ela se debruça sobre ele morto, acaricia seu rosto e chora. Meu irmão Lidio está em pé na contra luz, mudo. As pessoas esperam e passam o tempo. No braço da minha irmã que chora, quase imperceptível, quase uma sombra, um mosquito pousa. Ele me lembra que todos os tecidos apodrecerão. Lembro do meu pai vivo e penso - "meu pai você só morrera quando eu morrer".

Fernando Augusto
Curitiba, 03 de junho de 2004
Fonte: http://www.muvi.advant.com.br
Coordenação: Fábio Channe