O ESTADO AMOROSO E A MELANCOLIA
Goethe-Institut - Porto Alegre - RS. De agosto a setembro de 2005
Solar do Barão - Curitiba - PR. 11 de novembro a 11 dezembro de 2005
Trabalho elaborado com Gabriele Piccoli, com colaboração de Jerri Rossato Lima,
Marcio Quadrado e Simone Bernardes
Do estado amoroso à melancolia e vice-versa

"O que repercute em mim é o que aprendo com meu corpo..."
Roland Barthes

Fotos. Objetos. Textos literários. Estes são os componentes eleitos por Gabriela Picoli e Luciano Zanette para esta sua instalação "O Estado Amoroso e a Melancolia". (1)

Uma instalação, entretanto, não é apenas dispor elementos em um determinado espaço. Há uma ordem relacional que também a compõe: aqui é a conversa das fotos, dos objetos e textos entre si. A relação de cada um com seu outro e a relação de todos com o espaço.

A instalação sempre é uma ocupação que altera seu lugar de apresentação. Nela há um viés experimental em sua efetivação pelo propositor e em sua percepção pelo outro. O artista realiza escolhas e rejeições definindo os lugares e posições dos objetos e este circuito será experimentado pelos corpos que o irão percorrer.

Gabriela Picoli que tinha lido "Fragmentos de um Discurso Amoroso", de Roland Barthes, e Luciano Zanette que fizera a leitura de "Sol Negro", de Julia Kristeva, passaram a produzir alguns trabalhos e perceberam que havia uma possibilidade de trama entre eles. Para ainda mais adensá-la escolheram alguns textos do escritor e fotógrafo Jerri Rossato Lima que nos são apresentados como possibilidade de escuta dupla. Polifonia para provocar polissemias.

Quanto às fotografias de Gabriela, elas têm como elemento dominante o corpo humano. Este conjunto de imagens teve seus limites determinados por escolhas formais da artista. Elas nos lembram de como este corpo é moldável, adaptável e sempre rico em possibilidades. Às vezes, é um corpo passivo que sofre intervenções na busca de assumir outra forma (quando mantém impressas na pele as marcas destas interferências). Outras vezes, é ativo e acolhe objetos, desenvolve gestos e assume posições.

Luciano Zanette realiza um jogo com as formas. O objeto maior, nascido da observação dos genuflexórios das igrejas, foi torcido, convertido e re-inventado. O que temos agora é um outro objeto, porém ainda podemos reconhecer seu princípio: o estrado onde os fiéis se ajoelham para orar. Mas aqui os dois lugares estão de frente um para o outro (vamos lembrar que nas igrejas ficamos lado a lado com nossos semelhantes ao dobrarmos os joelhos diante de um deus - de quem temos a imagem, mas não a natureza). Parece que o artista propõe que recriemos nossas posições ao nos curvarmos em frente a um outro humano. Mais um dado: os "genuflexórios" de Luciano são separados por distância igual à de uma cama, logo, eles ocupam as posições da cabeceira e seu contrário e, entre eles, há ainda outro corpo subentendido.

É no conjunto dos objetos da instalação e em sua maneira de ocupar o espaço que o estado amoroso e a melancolia se tocam e influenciam, porém sem se fundirem reduzindo-se a um único terceiro estado onde perderiam suas potências e singularidades. Aqui elas se relacionam e são colocadas sempre em movimento num infinito comentário mútuo. Como pode ser na vida, entre as pessoas.

"O estado amoroso e a melancolia tem uma ligação profunda: um é o termo corolário do outro. A criação literária, por sua vez, tem uma inteira relação com ambos: não há escrita que não seja amorosa; nem imaginação que não seja, aberta ou secretamente, melancólica". (2)

Claudia Paim
2005

(1) Os textos são de Jerri Rossato Lima que integra, junto com Luciano Zanette e Gabriela Picoli, mais Marcio Quadrado e Simone Bernardes, desde 1998, o coletivo Comfluência. Estes dois últimos também são colaboradores desta instalação, pois emprestam suas vozes para o áudio que podemos ouvir.

(2) Julia Kristeva. Sol Negro. Rocco: Rio de Janeiro, 1989.

Fonte: http://www.muvi.advant.com.br
Coordenação: Fábio Channe