Luciano Mariussi
Vitrines
Café do Teatro - Curitiba - PR - 2004

VITRINE DO CAFÉ DO TEATRO

Em 2004, fui convidado novamente a participar de outro projeto de vitrine. Dessa vez o espaço a ser utilizado era uma vitrine especialmente construída para o projeto, idealizado pelo artista plástico e cenógrafo, Fernando Marés. Em uma grande janela de vidro do bar, foi construída uma pequena sala, semelhante a um espaço de galeria. O projeto previa a ocupação do espaço por 12 artistas no período de 12 meses. Novamente minha relação com o espaço estava em questão, pois havia se modificado novamente. Não se constituía como espaço de arte nem tampouco como bar. Era quase que uma galeria instalada dentro de um bar, tinha certa autonomia, pois estava isolada do espaço interno do bar e sua visualização poderia ser feita apenas pelo lado de fora.
Minha intenção foi novamente, a de romper com os limites de espaço dado e interferir na rotina do bar. Como o ocorrido com o trabalho anterior na livraria, deixaria na vitrine uma das partes constituintes do trabalho, mas não seria este o propulsor do trabalho.


Foi instalado na vitrine, com recorte em vinil, a seguinte frase:

"Seu Desenho Vale uma Cerveja"

Seguido da data do evento, 14/07/04 a 08/08/04 e ainda as normas para a participação da "promoção":

"Fica a critério do garçom (e curador), aceitar o desenho ou não, de acordo com seus critérios pessoais e subjetivos. Os desenhos aceitos farão parte da exposição da vitrine."

Dentro do bar disponibilizei material de desenho, papel, grafite, nanquim e pincel. Este material ficava com os garçons e era oferecido aos clientes do bar para a elaboração de um desenho em troca de uma cerveja. A troca apenas seria efetuada caso passasse pelo crivo dos garçons, que foram anteriormente instruídos a aceitar apenas o que era realmente do seu agrado pessoal. Cada trabalho aceito era exposto na vitrine, que aos poucos foi sendo preenchida por diversos desenhos.

Neste caso, o contexto do trabalho gerou uma situação metafórica dos mecanismos da arte em geral. Inclusos no trabalho da vitrine havia artistas dispostos a comercializar seu trabalho, alguém com poder de julgamento crítico para validar os trabalhos (no caso o curador / garçom) e um espaço de exposição para dar vazão a esta produção e fazer a intermediação com o público.

Arte é feita de escolhas subjetivas e estas escolhas passam sempre por um inventário pessoal de referenciais que cada artista, crítico, ou curador possui. Este trabalho reforça esse aspecto por meio da nomeação de uma pessoa qualquer como artista ou curador. Assim como em uma prática duchampiana de deslocamento, que o faz o objeto ser valorado como artístico, aqui pessoas quaisquer foram deslocadas de sua condição normal, digo não artística, para uma posição de detenção de poder de criação.

Além das características comentadas nos trabalhos anteriores, inclusão do espectador dentro da obra, humor, interatividade, relação entre arte e espectador, relação entre espectador e espaço expositivo, estas vitrines contém um dado importante a ser relevado: a compra da participação do público. Enquanto os outros trabalhos como "Entre" e "Estética" incluíam o espectador de forma impositiva, as vitrines tendem a serem mais amenas nesse sentido, e ainda assim mais eficazes. A participação do público se faz espontaneamente e uma certa disposição para reflexão pode ser notada.

Luciano Mariussi

Fonte: http://www.muvi.advant.com.br
Coordenação: Fábio Channe