Nazareno
Alguns Conseguem
Galeria Virgílio - São Paulo - SP
11 de outubro a 05 de novembro de 2005
LUIZA INTERLENGHI

... toda estória, por mais absurda que possa parecer é perfeitamente capaz de ter acontecido ou de acontecer (1)

"aqui, se você quiser começa uma história", escrito em caligrafia infantil próximo a um desenho ondulado, como água revolta, aparece em São as coisas que você não vê que nos separam, livro em que Nazareno registra projetos, vários objetos e onde acolhe memórias em fragmentos de imagem, fotos antigas, textos e breves narrativas visuais, algumas criadas apenas com balões vermelhos ou instruções de malabarismo. Dedicado "aos fortes", o livro, um inesperado condutor de percepção para Isso existe, se desenvolve no tempo incerto entre as duas posições de um interruptor (primeira e última imagens apresentadas). Nesse estranho intervalo, um lugar "entre" dois tempos, que liga e desliga, Nazareno revê as estratégias envolvidas no jogo social e os objetos a que eventualmente são associadas, identificando-as prematuramente, nos jogos infantis, nos quais, de algum modo, tudo começa (além das muitas coisas que a criança não compreende, ela precisa ser aceita no mundo em que chega, e que há muito já existe). Embora socialmente compartilhadas, estas estratégias implicam em escolhas individuais. E é justamente a partir do campo estabelecido entre a escolha individual e o comportamento socialmente esperado que nos falam as histórias deste narrador de imagens. Afinal, como as palavras provocam imagens, as imagens, matéria dos sonhos, sugerem histórias silenciosas. Não é por acaso que Nazareno se interessa por objetos que demarcam o lugar em que o real e o imaginário se aproximam: em Caravana ou sobre aquilo que não se diz (2005) o artista reinventa caminhas e berços alinhando-os em caravana a trafegar no limiar entre sono e vigília.

Narradores imprimem gestos, empregam sua própria voz e buscam variados artifícios para encantar ouvintes. Em A Boazinha, série central de Isso existe, Nazareno encontra nos bonecos, tradicionais instrumentos de sedução dos narradores, um expediente para cruzar a fronteira entre as coisas opacas e a fantasia, re-visitando o inesperado realismo subjacente ao imaginário dos contos de fadas. Ora, os contos e seus ensinamentos concisos são transmitidos por diferentes vozes sem se desmanchar. De tal modo são sedimentados através das tradições que, desde um passado distante, falam no presente àqueles que acabaram de chegar. Não apenas para os pequeninos mas para ouvintes de qualquer tamanho, os contos exploram as ambigüidades da condição humana. E porque é fácil perder-se nos labirintos da convivência social (cujas trilhas são riscadas pelas paixões, frustrações, desejos e as infindáveis nuances de caráter), quando se tratam dos ritos, quando se respeitam hierarquias que determinam os limites individuais, a posição prevalece sobre o sujeito que a ocupa. De modo semelhante, nos contos os acontecimentos e a ação prevalecem sobre os personagens e seus nomes.

A visão infantil se projeta de modo residual nos gestos, nas vestimentas, no simbolismo dos provérbios e dos contos. Com A Boazinha, Nazareno traz à cena uma personagem que, na forma bipolar dos contos maravilhosos, representaria o bem. Entre o devaneio e o real trágico, contos de fadas são povoados por personagens como essa que, afetadas por um mal terrível ou uma forte ausência, deflagram a narrativa, seguida por acontecimentos intermediários. Tocada por precisas intervenções mágicas a história se desenvolve, até atingir ao desfecho de que se extrai um ensinamento. Separadas de seu reino, princesas são reconhecidas pela peculiar sensibilidade a um grão de ervilha sob sete colchões ou salvam sua pureza do incesto, disfarçadas sob a pele de um asno. Marcada pela falta da boa mãe, a delicadeza da personagem mostra-se tanto mais primaveril quanto a virulência de suas antagonistas - sejam bruxas devoradoras ou madrastas cruéis -, para tratar a ambigüidade das relações humanas, nas quais os contos buscam certas constantes e certezas pontuais.

A Boazinha subverte a personagem emblemática dessas histórias que bordam o fantástico à dura realidade dos limites e conflitos humanos, e reaparece em Isso existe, caracterizada por ambígua veste da nobreza palaciana do tempo do "Era uma vez ...". A natureza conflitante da personagem, ao mesmo tempo princesa e rainha má, é já definida pelo desacordo entre nome e caracterização: as vestimentas da Boazinha não comportam o brilho cristalino do sapatinho de Cinderela, nem deixam entrever a pele alva da Bela Adormecida. A Boazinha se esconde sob as camadas de feltro verde do vestido, pétalas de botões que não se abrem e nunca amadurecem; com a cabeça oculta sob voltas de tule verde claro, sua figura ostenta o vestido como pele, uma visão concisa de Pele de Asno e do lobo em seu disfarce, a maldade genuinamente humana.

Surge em seguida a pequena Boazinha: as duas personagens são idênticas, exceto pelo tamanho. Ao aproximar-se, a pequena é violentamente repelida pela Boazinha, que a derruba e abandona. A experiência da rejeição, torna-se ainda mais violenta pelo espelhamento entre as duas protagonistas. Ignorado pelas fadas, este drama reserva duro desfecho a suas personagens; solidão e abandono - isso existe.

Continuando a linhagem das histórias da última esposa de Barba Azul, uma nova narrativa surge da anterior e re-apresenta a pequena personagem se curvando em reverência à Boazinha. Há sempre alguém antes de nós a quem devemos reverenciar. A Boazinha personifica o próprio encobrimento e a pequena Boazinha sua perpetuação. A seqüência de duas imagens é dada apenas pelos gestos e posicionamento dos personagens. Posição e hierarquia, desde o final da década de 90, são objeto de investigação do artista que através de objetos em miniatura sugere fábulas e reconta relações humanas. O jogo social é tomado por Nazareno como uma cadeia de estratégias para as quais há sempre uma posição ou um adereço a escolher e que definem o papel a ser cumprido na situação e objetivos dados.

Se o narrador - este que nomeia a personagem, descreve seus trajes e descortina a sucessão dos acontecimentos - empresta sua sedução a antigas histórias constitui, por sua vez, uma posição no interior da história, um outro personagem. As histórias dos bufões seduzem e rompem um estado de coisas, seja pelo riso ou pelo espanto. Mas, apenas alguns conseguem transcender os limites do outro, cruzar suas resistências. Desde a Baubô, Pulcinella e Mamãe Gansa o narrador entra na história travestido como a boa velha contadora de histórias. O personagem, que originalmente esbanjava irreverência, foi sendo domesticado através dos tempos, mas é possível seguir o rastro do narrador até o deus da fecundidade outonal, sob o manto da boa velhinha a seduzir Pomona.2

Recolhendo histórias que contêm ensinamentos, Nazareno articula objetos emblemáticos, recriados na dimensão dos brinquedos, a comentários, marcações e epígrafes que os transfiguram e re-significam, como as vestes que recobrem bonecos articulados, transformados nas Boazinhas. Cada objeto refeito em miniatura assume função eminentemente simbólica, como uma marionete, e distanciando-se do uso prosaico de seu correlato passa a integrar uma nova narrativa. Ilusão é achar que tudo existe fora da fantasia, no mundo real.

1. Em São as coisas que você não vê que nos separam, Nazareno, edição independente, 2004, p 44.

2. Ib. p 115.

Ver Marina Warner, Da fera à loira:sobre contos de fadas e seus narradores (São Paulo, 1999).

Fonte: http://www.muvi.advant.com.br
Coordenação: Fábio Channe